Rio de Janeiro, 14 de Março de 2026

O mundo é o mesmo

Por Mauro Santayana - Muitos acreditam que o fascismo desapareceu totalmente da História, e a morte de Pinochet contribui para essa conclusão. Mas há os que pensam de forma diferente. Uma vez que o mal-estar atual é mais ou menos o mesmo do período em que ele surgiu e floresceu, toda cautela é pouca. (Leia Mais)

Terça, 19 de Dezembro de 2006 às 09:00, por: CdB

Ao ver o Brasil de longe, o que está sendo possível ao colunista, em viagem à Europa, podemos perceber que as nossas angústias nada têm de particular. A globalização é vitoriosa. Em todos os países europeus - e o mesmo, de certa maneira, ocorre nos Estados Unidos - os governos são acossados pelos mesmos problemas. São os déficits orçamentários, a erosão dos sistemas públicos de previdência e saúde e a pressão para que sejam privatizados, a corrupção dos quadros administrativos pelo poder econômico, a redução dos empregos, em conseqüência da tecnologia e do afã de lucro das empresas, e o aumento da criminalidade. No mundo inteiro, enfim, se discute a deterioração intelectual e ética dos homens públicos. Não há mais líderes, capazes de fermentar a vontade dos homens e os conduzir na História. No fundo, como concluem alguns pensadores, trata-se de uma crise de caráter, entendendo-se o vocábulo em sua neutralidade doutrinária. A personalidade dos políticos esmaece.

Por outro lado, há mudanças marcantes nos costumes, o que irrita as almas conservadoras. Está sendo difícil aceitar a realidade de que o homossexualismo faz parte da história da Humanidade (e do comportamento de alguns animais, segundo estudos recentes de etologistas) e é inútil fechar os olhos a essa condição social. É também incômodo constatar que o lar não é mais a passagem entre o adolescente e a sociedade. Assim como os pais saem de casa para a dura competição do mercado de trabalho, os filhos são compelidos a se comunicar diretamente com o mundo, o que lhes é facilitado pela internet. Os valores, que ainda existem, estão esparsos. Os que os quiserem encontrar, terão que os garimpar, na referência literária, na orientação religiosa, na meditação ascética.

Os historiadores sabem que crises como a atual são freqüentes. Não houve século que não conhecesse alguma. O que difere o nosso tempo dos outros, à parte o fato de que cada geração cabe sofrer a sua crise, é o fato de que hoje, havendo mais pessoas no mundo, e sendo mais conhecidos os seus dramas, pela instantaneidade das comunicações, o problema toma outra dimensão. Os homens reagem ora com o balançar de ombros do conformismo, a partir da idéia de que o mundo é assim mesmo, e nada se pode fazer, ou com a militância, em busca da correção de rumos. Nessa militância, para lembrar a metáfora de Koestler, atuam o iogui e o comissário, o inquisidor e o carrasco. O iogui procura salvar os homens a partir da alma, no exercício da não violência, como fez Gandhi, a fim de obter a independência formal (ainda que não de fato), de seu país. O comissário estabelece a fraternidade pela propaganda e pela força. Na outra extremidade do espectro, funciona a inquisição e o carrasco. É certo que não tem havido muita diferença entre o totalitarismo de direita e o de esquerda, no que tange à repressão. O que difere, conforme apontou Bertrand Russel, é a finalidade das ideologias. A esquerda tem a meta generosa da igualdade; a direita não tem outra meta, que não seja a da permanência da opressão, em nome do direito da força.

O fascismo de volta

O mal-estar crescente relembra outros tempos. Quem se dispuser a examinar o que foram os primeiros anos do século passado, neles encontrará o esboço dos tempos atuais. O fim do século 19 é quase um espelho do fim do século 20, e o princípio do século 20 faz lembrar os anos recentes. O capitalismo procurou acumular o que pôde, na segunda metade dos oitocentos, aproveitando-se da disponibilidade de mão de obra barata, impiedosamente explorada, das minas de carvão aos teares e aos canteiros de construção civil, com a urbanização e o embelezamento das grandes metrópoles. O mercado se impôs aos governos, financiando políticos venais, e a corrupção grassou, sem peias. Banqueiros e empreiteiros se associaram, para saquear o Estado, como se viu no caso paradigmático do escândalo na construção do Canal do Panamá, e no episódio dos barões das ferrovias, nos Est

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