Mario Botta considera que nossa época se caracteriza por duas condições que a humanidade talvez jamais teve de enfrentar: a complexidade dos problemas e a rapidez das transformações.
Com vistas às eleições legislativas federais de outubro, o famoso arquiteto fala de sua visão da política.
O célebre arquiteto da Suíça italiana (sul) começa a entrevista concedida à swissinfo.ch citando uma passagem de um livro do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt: “Há sempre o bom velho ditado: é bonito nascer suíço, é bonito morrer na Suíça. Mas o que fazer nesse intervalo?” Ora, justamente, o que fazemos?
swissinfo.ch: Dürrenmatt acompanha a política suíça com um olhar crítico. O senhor também se interesse pela política federal suíça?Mario Botta: Acompanho pouco a política suíça. Por razões geográficas, porque sou mais voltado para o Mediterrâneo. E sobretudo porque são os acontecimentos do mundo que me interessam. Cada um de nós, queira ou não, tem um telefone celular no bolso e é um cidadão do mundo.
swissinfo.ch: O que quer dizer ser cidadão do mundo? O senhor pode dar um exemplo?M. B.: Até alguns meses atrás, a África era um continente longínquo. Quem teria pensado, mesmo se isso parecia uma bomba que explodiria, que isso ocorreria à nossa porta em tão pouco tempo? Existe um aspecto imprevisível que não permite qualquer previsão política. Tenho a impressão que nosso mundo é objeto de acontecimentos cada vez menos racionais e que ele tenta de ficar à tona.
Frente a esses acontecimentos de consequências planetárias, a linguagem dos políticos me parece pervertida, porque eles dizem qualquer coisa, levados pela onda dos acontecimentos, das emoções, dos sentimentos.
Tomemos ainda as pressões em proveniência da África : todo mundo fala dos clandestinos. Mas clandestinos em relação a que? De onde vêm essas pessoas? De outro mundo? De Marte? Elas não têm direito de existir? De um lado nós pregamos pela mundialização, a tolerância e a abertura, que devem trazer mais prosperidade a todos os seres humanos. Mas de outro lado, estamos dispostos a levantar muros e fronteiras.
M. B.: Há naufrágios aparentes como no caso do UBS. E depois tudo volta ao seu lugar. Isso significa que no sistema geral a Suíça ainda se encontra, apesar de tudo, em boas condições. O que dizer da política? Já é muito se ela consegue pressentir as linhas de desenvolvimento para o país, que não tem uma crise a cada estação.
Os políticos, mas não unicamente os suíços, correm constantemente depois dos ajustes. Eles tentam sempre enfrentar problemas da atualidade: o nuclear, os estrangeiros, os fluxos migratórios. Mas eles não tem visão, estratégias de apenas médio prazo. A política de resolver cotidianamente o caráter imprevisível dos acontecimentos que, de fato, condicionam a vida humana.
M. B.: Faz pouco tempo, um ministro suíço pediu desculpas a Gadhafi. Agora o líder líbio é acusado de crimes contra a humanidade. Isso faz refletir.
swissinfo.ch: O senhor nunca pensou em entrar na política?M. B.: Não (risos) ! A única certeza é que eu faria tudo errado. Creio que como existem seres dotados para a música, o desenho, o teatro, existem serem dotados para a política e é justo deixar para eles esse espaço.
swissinfo.ch: O arquiteto deixa um traço no território. Vocês não têm, de uma certa maneira, um papel político?M. B.: Eu acho que a arquitetura é uma atividade social e coletiva por excelência. A arquitetura – sempre no sentido absoluto – é a expressão formal da história do tempo, independentemente da força da e da personalidade do gesto arquitetural. Nunca é um ato individual.
Há na arquitetura um valor no qual eu acredito muito: a memória. Se você perguntar a uma centena de pessoas qual é o melhor espaço de vida, quase todas responderão que é o centro histórico, na Itália como em outros países europeus. É paradoxal! Porque é o lugar dos mortos, dos povos extintos. Isso quer dizer, portanto, que a qualidade que reconhecemos como espaço de vida não é uma qualidade técnica ou funcional. É a qualidade da memória, da história.
É por isso que eu creio à primazia da cidade europeia em relação ao modelo da cidade americana ou asiática. Na cidade europeia, existe uma estratificação histórica que não nos deixa sozinhos.
M. B.: Não existem mais intelectuais de referência para onde olhar em razão de sua formação filosófica, técnica ou científica ou devido sua melhor consciência da realidade do mundo. Hoje, a realidade do mundo é um caos, um labirinto no qual nos movimentamos todos. Não se pode mais falar de herança de um papel que o intelectual teve no passado, frequentemente como consciência crítica de um país.
swissinfo.ch: O senhor viaja muito para o trabalho. Qual é a imagem da Suíça no exterior?M. B.: Ela ainda tem um grande crédito por sua paz social e política, mas sobretudo como exemplo de equilíbrio das coisas bem feitas, um equilíbrio que a sociedade de consumo e da mundialização atual não tem mais. Desse ponto de vista, em relação aos méritos que ela tem realmente, a Suíça é sobrevalorizada.
swissinfo.ch: E quais são seus méritos?M. B.: A estabilidade. Apesar de tudo, este país vive junto há mais de 700 anos. Mais fica junto, a meu ver, por não nos conhecemos. Creio que essa união é fundada em interesses. Os conflitos linguísticos, religiosos, culturais sempre foram adiados. É como um armistício perpétuo.
swissinfo.ch: O que o senhor espera das eleições legislativas federais?M. B.: Nada vai mudar, mas faço um voto: que cultivemos mais, como suíços, a solidariedade e a tolerância. Porque as mudanças em curso não vão parar e não poderemos defender nossos privilégios para sempre.
Vou concluir com Dürrenmatt qur diz: “A Suíça é uma prisão onde os prisioneiros são seus próprios guardas”.
Dürrenmatt ri e diz que o nos salvará, talvez, é nosso senso de humor, ou seja, essa capacidade de distanciamento que permite ver também o grotesco.
Françoise Gehring, swissinfo.ch
Adaptação: Claudinê Gonçalves