Rio de Janeiro, 06 de Setembro de 2026

O Manual do Entrevistador

Por Oscar Berro e Carlos Eduardo Gouveia - O fascínio que os veículos de comunicação exercem sobre a sociedade, especialmente quanto ao poder de seleção, divulgação e síntese dos fatos que formatam o cotidiano, tem determinando, quase sempre, as políticas sociais de governo. Para estes valorosos inquisidores da realidade brasileira, seguem aqui algumas sugestões para se chegar ao fundo de uma questão vital para a dignidade dos brasileiros, que é o bom atendimento médico em hospitais e postos de saúde no Rio de Janeiro. (Leia Mais)

Sexta, 22 de Abril de 2005 às 08:24, por: CdB

O fascínio que os veículos de comunicação exercem sobre a sociedade, especialmente quanto ao poder de seleção, divulgação e síntese dos fatos que formatam o cotidiano, tem determinando, quase sempre, as políticas sociais de governo.  Para estes valorosos inquisidores da realidade brasileira, seguem aqui algumas sugestões para se chegar ao fundo de uma questão vital para a dignidade dos brasileiros, que é o bom atendimento médico em hospitais e postos de saúde no Rio de Janeiro.

O primeiro aspecto na avaliação do desempenho dos gestores públicos da Saúde é o de que, para o adequado funcionamento de qualquer unidade hospitalar é indispensável, além dos profissionais de saúde e equipamentos, um extenso conjunto de medicamentos e materiais médico-cirúrgicos.  Em hospitais gerais, ou de emergência, esse conjunto agrega entre mil a 1,2 mil itens.  Como há a integração dos sistemas no atendimento ao paciente, é importante dispor de todo o conjunto, evitando-se que a paralisação de um equipamento ou serviço possa contaminar outras atividades hospitalares.  Por exemplo, a falta de filmes de raio-x reduz o número de diagnósticos da equipe médica que, por sua vez, faz diminuir o número de intervenções cirúrgicas e daí por diante.  O final dessa cadeia de eventos será, inexoravelmente, uma fila imensa de gente sofrendo e, com toda razão, chamando o gestor público de incompetente, para ser bem elegante.

A falta dos insumos na rede municipal de saúde do Rio, necessariamente, não está associada ao volume de repasses financeiros do governo federal.  É preciso que o entrevistador aprofunde tal questão e observe como acontece a compra de medicamentos e materiais médicos junto às indústrias e se a entrega acontece em apenas um local. Se a rede municipal é integrada por mais de 100 unidades, entre hospitais e postos de saúde, terão os almoxarifes competência e estrutura para estabelecer, de forma contínua, o fluxo de suprimento? Grandes volumes estocados em um único ponto, formando gigantescos estoques, controlados por servidores mal remunerados, favorecerão a evasão hospitalar?

Poderá argüir o entrevistador, porque a Prefeitura não determina que as entregas sejam realizadas pelas indústrias diretamente nas maiores unidades da Prefeitura (hospitais e antigos PAMs), tornando mais seguro o fluxo de suprimento. Certamente, a questão esbarrará no processamento das faturas.  Mais de 100 fornecedores entregando, simultaneamente, em 40 pontos de entrega, determinarão cerca de 4 mil faturas a serem liquidadas em cada ciclo de fornecimento.  Possivelmente, se insistir, o entrevistador observará a dificuldade da Prefeitura em realizar o pagamento dessas faturas, cumprindo procedimentos excessivamente burocráticos, em uma única tesouraria, na Secretaria Municipal de Fazenda.

Não seria o caso, como poderia observar o entrevistador, de ser implantado o Fundo Municipal de Saúde no âmbito da Secretaria de Saúde, de forma a, através de rotina própria, assegurar a coleta e pagamento dessas faturas em tempo hábil, de modo a garantir o abastecimento permanente da rede?

O repórter ainda poderá argüir as autoridades federais como é possível realizar o atendimento de emergência nas unidades vinculadas ao Programa da Saúde da Família (PSF) no âmbito da região metropolitana.  Detalhe importante: tais unidades não dispõem de equipamentos, materiais ou de medicamentos suficientes para realizar esse tipo de atendimento. É difícil compreender como uma cesta de aproximadamente 40 medicamentos do PSF poderá cobrir a necessidade mínima de 160 remédios necessários para ativar uma unidade de emergência. E aí, lá vem de novo a fila de queixosos, e haja adjetivos para as autoridades.

Nosso entrevistador poderá também utilizar o princípio do contraditório e pedir que as autoridades esclareçam porque não permitir à população o acesso aos medicamentos hospitalares adquiridos pelo governo por um

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