Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

O livro que é uma bofetada na elite

Por Ana Helena Tavares - Afinal, o que dizer de um livro escrito por um defunto e dedicado a um verme? Se eu disser – “Machado é irônico” – isso soará quase como uma redundância.

Segunda, 04 de Agosto de 2014 às 12:00, por: CdB
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Ao mesmo tempo que mostra caminhos, Machado não ensina como trilhá-los
 Afinal, o que dizer de um livro escrito por um defunto e dedicado a um verme? Se eu disser – “Machado é irônico” – para quem o leu, isso soará quase como uma redundância. Mas ele não é um irônico convencional. Sua ironia tem um gosto mórbido, como prova “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Quando Machado faz um prólogo garantindo que escreveu a obra “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, ele está mostrando ali os caminhos para quem quiser interpretar e, por que não dizer, para quem quiser criticar seu texto. Lembrando que, ao contrário do que pensa o senso comum, crítica não é necessariamente algo ruim. Ao mesmo tempo, porém, em que mostra caminhos, Machado não ensina como trilhá-los. O romancista ficou conhecido como um “mestre da ironia”, mas Brás Cubas tem momentos tão melancólicos que ali ele parece desautorizar que assim o chamem. Seria mais preciso chamá-lo simplesmente de “bruxo do Cosme Velho”, outro apelido que ganhou. Porque bruxo, daqueles que embaralham conceitos, isso ele era. A galhofa e a melancolia de que ele fala no prólogo se misturam ao longo do livro de forma a deixar confuso até o olhar mais atento. Misturam-se tão constantemente como o uso da primeira e da terceira pessoa. É de ficar zonzo. Se descontextualizarmos trechos do livro e observá-los isolados poderemos achar Machado um “engraçadinho” que brinca com seus próprios defeitos, mas há no conjunto dos capítulos um quê de sátira à nauseabunda elite brasileira. É fundamental estar atento a detalhes, interligando palavras aparentemente ditas à toa, para que se interprete o jogo entre essência e aparência proposto pelo autor. Machado não só foi um aguço pintor da sociedade patriarcal de seu tempo, como também do psiquismo humano, tendo antecipado conceitos que mais tarde Sigmund Freud tornaria célebres. No cap. 23, a morte da mãe de Brás Cubas é contada assim: “Quê? Uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa imaculada, era força que morresse assim trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia? Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano…” Brás Cubas está aí se colocando num estado de luto que Freud viria a relacionar a um estado melancólico, sem que os dois estados se confundam, na medida em que, para Freud, o luto é uma suspensão temporária da libido, ao passo que a melancolia tende a ser uma suspensão definitiva. Brás Cubas dá a entender que seu luto pela morte de sua mãe detonou sua melancolia, quando diz: “Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e sutil”. Ao vislumbrar a melancolia, Brás Cubas tenta fugir, quer retornar à vida tumultuada e de prazeres carnais que tinha antes da morte da mãe. Faz a primeira tentativa com Eugênia, mas é em vão. Depois, volta à Virgília, a noiva escolhida por seu pai, mas ao pedi-la em casamento o seu relógio quebra. Ele tenta consertá-lo, numa tentativa de fazer o tempo voltar, mas justo nessa hora reencontra Marcela, um amor de juventude, e ela está corroída por bexigas. “As bexigas tinham lhe comido o rosto; a pele, ainda na véspera tão fina, rosada e pura, aparecia-me agora amarela. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o lábio triste e a atitude cansada”. Através dessa descrição, Brás Cubas demonstra ter tido uma espécie de alucinação, fundindo Virgínia e Marcela, presente e passado. Um passado ao qual ele tenta voltar loucamente desde a morte de sua mãe. Uma tentativa que sempre o levou, ironicamente, ao futuro. Fugindo da morte, sempre deu de cara com ela, através das mazelas de suas amadas. Mas, no derradeiro encontro com Virgília, ele percebe que é impossível a fuga. Ele acaba por ver na pele sadia de sua noiva Virgília as bexigas que acabaram com a beleza física de Marcela. Está ali a prova de que vida e morte se entrelaçam. Parece-me que ele define bem isso, quando diz: “Ninguém se fie na felicidade presente; há sempre nela uma gota de baba de Caim”. Também quando ele fala sobre a natureza, chamando-a de “mãe e inimiga”, como se dissesse que ela só nos faz viver para depois nos fazer morrer. E Brás Cubas, sentindo que foi sempre um morto em vida, acaba virando um defunto-autor que se regozija, no final do livro, por não ter dado “a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Para chegar ao cerne do romance machadiano, é imprescindível perceber o distanciamento entre o Brás Cubas personagem e o narrador. Este último demonstra interesse em lembrar algumas coisas, enquanto esquece outras. Em dado momento do livro, o narrador declara que tem “desdém dos finados”. Ora, mas ele está narrando a história de um morto… Então, uma das leituras que podem ser feitas disso é que o livro teria sido escrito ironicamente por Machado contra o seu narrador Brás Cubas. Nessa linha, podemos inferir que, ao defender metafisicamente que é impossível mudar a condição humana ou o que quer que seja, o narrador Brás Cubas estaria defendendo, na verdade, a manutenção de seus privilégios. Ele fala da contradição humana falando da contradição social brasileira. Ele descreve o corpo carcomido de sua amada como quem desnuda a degeneração moral dos que se acham donos do país. Por esse prisma, a ironia que permeia a obra pode ser lida como uma bofetada na burguesia e nas elites. Uma bofetada dada por um mulato autodidata que se tornou um dos maiores escritores do mundo. Queria ser lido por “talvez cinco” leitores, como diz no prólogo, e foi lido por milhões. Queria falar de morte e produziu uma obra de arte imitando a vida. Talvez a bofetada tenha sido dada em si mesmo. Irônico, como sempre. Ana Helena Tavares, jornalista, conhecida por seu site de jornalismo político Quem tem medo da democracia?, com artigos publicados no Observatório da Imprensa e na extinta revista eletrônica Médio Paraíba. Foi assessora de imprensa e repórter dos Sindicatos dos Policiais Civis e dos Vigilantes. Universitária, entrevistou numerosas pessoas que resistiram à ditadura e seus relatos (alguns publicados na Carta Capital e Brasil de Fato serão publicados brevemente num livro. Direto da Redação é editado pelo jornalista Rui Martins.
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