Rio de Janeiro, 15 de Março de 2026

O juro exterminador (ou a maldição do Copom)

Por Bernardo Kucinski - No começo do governo Lula, os banqueiros disseram que o juro era alto porque embutia a inflação, o risco Brasil, o custo dos inadimplentes e a falta de uma nova lei de falências. Todos esses problemas foram resolvidos, mas o juro real básico continua na mesma faixa dos 10%. Parece uma maldição. (Leia Mais)

Quarta, 13 de Dezembro de 2006 às 11:30, por: CdB

Que estranho sortilégio impede o presidente Lula de baixar o juro absurdamente alto pago pelos papéis da dívida pública? No começo do primeiro mandato, os banqueiros disseram que tinha que ser assim, que esse juro embutia a inflação, mais o risco Brasil, mais o custo dos inadimplentes, mais a falta de uma nova lei de falências. Pois o risco Brasil caiu de mais de 2.000 pontos a menos de 200, e nada de o juro real cair. O presidente sancionou a nova lei de falência e a lei da afetação imobiliária, como queriam os bancos, criou o cadastro do bom pagador, e nada de o juro real cair. Em maio de 2003, Meirelles prometeu que se a inflação caísse o juro cairia em seguida (nota 1). A inflação desabou de quase 10% ao ano para menos de 3%, mas o juro real básico continua na mesma faixa dos 10% ao ano do começo do segundo mandado de FHC (2). Parece uma maldição.

O Brasil é o único país do mundo em que o Banco Central paga pelas sobras diárias do mercado financeiro o mesmo juro altíssimo que paga por títulos de longo prazo; o único país em que as taxas básicas de juros do Banco Central são maiores do que as do mercado para os mesmos papéis, e não menores. Uma anomalia que herdamos do Plano Real e que o governo Lula não consertou. E a um "enorme custo social" (3).

É o maior juro real do mundo, acima dos 6,8% da Turquia e quase o dobro dos 5,6% de Israel e 4,7% da China, que já estão muito acima dos juros da maioria dos países (4). Com esses juros, os encargos da dívida pública consomem nada menos que 8% do PIB, contra apenas 2,4% investidos em obras de infra-estrutura (5). É por isso e por nenhum outro motivo que o governo não tem dinheiro para investimentos (6). Só o governo federal, com cada ponto de corte na Selic, teria R$ 10 bilhões a mais para investir. Mas os petizes ortodoxos do Copom, mais preocupados em garantir os lucros dos rentistas, nunca testam o limite inferior. Mesmo pela sistemática de metas de inflação, os cortes da Selic estão atrasados em mais de dois anos (7).

O imobilismo do governo frente ao Copom lembra aquele filme do Buñuel, "O Anjo Exterminador", em que, ao final de um jantar de grã-finos, os convidados não conseguem se despedir, retidos sob uma força imaginária por vários dias, mesmo depois que um deles morre e todos passam fome e frio. Nenhuma força física os detém, mas ninguém consegue atravessar a porta de saída. Lá fora a multidão se junta. Também ninguém consegue entrar. O mesmo imobilismo congelou o juro real no Brasil, que chegou a ser mitificado como "juro real de equilíbrio", como se fosse uma lei da natureza e não uma imposição dos bancos (8).

A última reunião do Copom deste ano mostra que tudo continua na mesma, a mesma conversa enganadora da necessidade de combater a inflação, quando a verdade é que a inflação já está há muito tempo bem abaixo do centro da meta de 4,5% ao ano, e há muito deixou de ser o problema central da economia (9). E as únicas pressões inflacionárias são de tarifas de serviços públicos, que não são suscetíveis à taxa de juros, não dependem de uma demanda maior ou menor, são determinadas por decreto (10). O combate à inflação é apenas um pretexto para justificar os juros altos dos rentistas (11).

Os banqueiros já estão usando um novo argumento, o de que não adianta baixar os juros tanto assim, afinal a Selic já caiu de 26% para 13,25% e o nó do crescimento não desatou. Omitem que o juro real se mantém praticamente no mesmo patamar. Com juros reais em torno de 10%, nenhuma economia capitalista pode crescer. O capitalismo se chama capitalismo justamente porque precisa muita grana, muito capital, para seus investimentos, que são pesados. Uma siderúrgica precisa de US$ 4 bilhões investidos durante três a cinco anos, e só depois começa a render. Se o dinheiro custar muito caro, ela não recupera seu investimento. Em toda a história do capitalismo os juros reais ficaram em torno de 0 a 2% ao ano, exceto nos momentos de crise aguda, como na crise d

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