Sou a favor de paz. Passei oito anos seguindo de perto as negociações entre Egito, Israel e Estados Unidos para a paz no Oriente Médio. Elas incluíam um anexo que deveria desembocar na autonomia do povo palestino, nunca alcançada porque considerada insuficiente — muito menos que um estado Palestino.
Eclipse: um feito da humanidade apagado por um acordo nuclear com o Irã
Na verdade, fui para Israel, em 1977, depois de Anuar Sadat quebrar o ódio congelado que distanciava egípcios e israelenses, o ciclo de guerras, com uma visita à Jerusalém. “Vai, e espera a paz”, foi a ordem que levei do jornal ao partir do Brasil.
Bem, poderia estar em Israel até hoje, 20 anos depois que mudei de desafio, indo para Washington acompanhar as negociações da dívida brasileira, porque a paz continua sendo uma fugaz miragem no deserto.
Os poucos momentos de paz que testemunhei, os acordos de Camp David, com o Egito, e um outro, sem rótulo, com a Jordânia, anunciado, paradoxalmente, num campo minado do Neguev entre os dois países, foram realmente comoventes. Mas, ao mesmo tempo, quanta reviravolta, rompimentos, atentados terroristas e guerras em frentes que se mantêm ainda agora com o dedo no gatilho.
O que se dizia, na época, era que sem o Egito não havia chance de paz ou guerra no Oriente Médio. Hoje ouvi a mesma asserção de um porta-voz da Casa Branca, comemorando o acordo dos EUA + 5 com os iranianos: a novidade foi a troca de país, agora o Irã.
Tenho verdadeiro apreço pela obstinação do presidente Obama em acabar seu mandato com o que ele acredita será o acordo que pacificará o Irã, hoje patrocinador de grupos terroristas como o Hezbollah, o Hamas e os islâmicos fanáticos do Califado nascente em partes da Síria, do Iraque e em pontos do norte da África. Aqui aplaudo também o fim do boicote e sanções a Cuba.
Quem sou eu para julgar o acordo entre EUA + 5 com o Irã? Um comentarista perguntou na CNN, depois de uma aparição curta, ao vivo, do premiê israelense Bibi Netanyahu: — O que será que ele sabe que os negociadores em Viena não levaram em conta? Não estará sendo arrogante? Presunçoso?
Se um político que se informa com o Mossad, o eficaz serviço secreto israelense, é assim descredenciado, quem estaria autorizado a prognosticar o futuro com o Irã reabilitado, sua fortuna represada em bancos ocidentais voltando a seus cofres. Não faz nem quatro dias os iranianos queimavam bandeiras israelenses e americanas em Teerã. Gritavam: “Morte os EUA! Morte a Israel”. Para consumo interno, aiatolá Ali Khamenei assegurou que só negociou mesmo limitações nucleares — e não o que fará com o dinheiro que vai recuperar nem o futuro de suas relações com o terror.
A verdade é que os iranianos chegaram às negociações fracos, humildes, e saíram delas cantando vitória. Além de Israel, a Arábia Saudita, que influencia os países do Golfo, resumiu o “histórico acordo” a um “monumental erro”. O que poderá ocorrer agora, na pior das hipóteses, e sem nenhuma força que a detenha, é uma corrida a armas nucleares pelos países árabes que suspeitam das boas intenções dos expansionistas iranianos, metidos em toda insurgência recente no Oriente Médio. Entre eles, seguramente, o Egito.
As tevês internacionais esperaram focando a tribuna vazia que Bibi Netanyahu demorou a ocupar. Quando ele chegou, surpresa: foi curto e apocalíptico. Repetiu “o erro histórico” assinado, e acrescentou: “Não estamos subordinados a este acordo… Israel vai se defender”. Foi embora sem responder a perguntas, a expressão funérea. Para Israel, em jogo estão, além do mais, as relações privilegiadas com os Estados Unidos, em franca degradação. Mesmo os republicanos, votando com os israelenses, no Capitólio, já foram advertidos por Obama que contemplem seu veto. O que dirá a candidata Hilary Clinton? Desprezará o voto judaico, às vezes decisivo?
Obama está passando a impressão de certeza absoluta, tratando de uma região tão instável, desde os tempos bíblicos. Seu orgulho estava a flor da pele. Por um momento, enquanto o noticiário do acordo se desdobrava em repercussões pelo mundo afora, contra e a favor, substituí urânio por cocaína, para uma reflexão. Lembrei-me do prefeito Fernando Haddad, de SP, pagando varrição para drogados com dinheiro usado para comprar mais crack. Pois bem: está decidido que o Irã não pode produzir mais crack, o urânio enriquecido para armas nucleares. Vai ficar sob vigilância 24 horas, 7 dias da semana. Quem acredita? Como monitorar cachimbadas furtivas numa região remota onde já funcionou, incólume, uma usina nuclear? Se o acordo for rompido, a produção proibida poderá ser reiniciada sem nenhum retardo consequente da interrupção. Estão lá as centrífugas prontas a operar.
Fui dormir na véspera do acordo com o Irã e da chegada histórica da humanidade a Plutão com a última edição da revista The New Yorker no Ipad. Não consegui parar a leitura de uma nova compilação de informações sobre o envolvimento iraniano na explosão que matou 85 judeus na sede da Associación Mutual Israelita Argentina (AMIA), em Buenos Aires, em 18 de julho (aniversário em quatro dias) de 1994.
“Estarrecedor”, para usar a palavra para as grandes surpresas atuais no Brasil: as provas se acumulam, o promotor que as reuniu foi “suicidado”, o Irã pagou para que os suspeitos iranianos fossem retirados de uma lista de procurados da Interpol, tudo isso com os bons préstimos do coronel bolivariano Hugo Chávez, da Venezuela. “Estarrecedor”, de novo: nada aconteceu, não acontece e, muito provavelmente, não acontecerá, com uma diferença: o Irã, agora, está reabilitado pelas principais forças do Ocidente — e nem precisa de uma bomba atômica neste momento para alimentar o fanatismo e o terror no mundo, um mundo mais perigoso.
Moisés Rabinovici, jornalista e grande repórter, correspondente durante muitos anos do Estadão em Israel, redator da Agência Estado, diretor dez anos do Diário do Comércio de São Paulo, até o fechamento da edição papel do jornal pela Associação Comercial de São Paulo.
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