Soldador de 50 anos trabalhou sozinho para fornecer o recurso a 25 mil pessoas de sua região
30/12/2010
Charles Mpka
de Blantyre (Maláui)
IPS
Hermes Chimombo, um soldador de 50 anos, é venerado no empobrecido distrito de Naotcha, no Maláui, país do sudeste africano. Armado com rudimentares ferramentas e paixão por aliviar o sofrimento humano, ele aproveitou um manancial de uma montanha para prover de água 25 mil pessoas.
Voltemos para 1998. Numa noite qualquer, grupos de mulheres abrem passo com cautela ao longo de uma trilha sob a montanha Soche. Saem na escuridão para evitar as filas durante o dia. Levam baldes de água sobre suas cabeças e têm medo de ser atacadas por delinquentes ou hienas que perambulam pelas fronteiras do distrito rural de Chikwawa.
“Esse era nosso pesadelo”, conta Sphiwe Adams, moradora do distrito de Naotcha por mais de 20 anos. A única fonte segura de água para beber, cozinhar e para uso doméstico era um manancial localizado no alto de uma encosta da montanha Soche, a 600 metros de onde a divisa do distrito se encontra com a floresta.
A proprietária de imóveis Eluby Mkwanda recorda o que ocorria com aqueles que se mudavam para casas localizadas perto da divisa. “No primeiro dia das mulheres na montanha, podia-se ver a ira em seus rostos. Não falavam com ninguém e gritavam com seus maridos por lhes terem levado para lá. Por isso, muitas dessas casas permanecem vazias”, diz.
Crescimento populacional
Naotcha se encontra a cerca de 20 quilômetros do reservatório mais próximo da empresa estatal Junta de Água de Blantyre. O tanque foi construído em 1964 para servir aos assentamentos planejados que circundam Kanjedza e Zingwangwa.
Mas a população da cidade de Blantyre cresceu de 113 mil habitantes em 1966 para 502 mil em 1998 – atualmente, estima-se que está em 670 mil. A crescente migração urbana, que começou a princípios de 1990, é a culpada pelo rápido crescimento das favelas. Em 40 anos, a Junta não fez nenhum grande investimento para expandir sua rede e assegurar um abastecimento continuado de água à população, disse seu porta-voz à IPS.
Chimombo era o chefe do Comitê de Desenvolvimento da comunidade em 1998. O problema da água se converteu rapidamente em sua maior preocupação. Em 1999, ele buscou apoio do Malawi Social Action Fund (Masaf), um programa financiado pelo Banco Mundial, cujos responsáveis responderam que considerariam sua proposta, mas apenas para a seguinte rodada de projetos, dali a sete anos.
“Senti a responsabilidade de salvar a situação”, diz Chibombo. “Eu havia levado as pessoas a acreditar que podíamos ter água. Não queria continuar vendo-os sofrer por outros sete anos”.
Na mesma semana, usando dinheiro de seu pequeno negócio de soldadura, comprou uma tubulação vertical, uma caixa d'água com capacidade para 100 litros, cimento e condutores elétricos de uso doméstico. Em apenas um dia de trabalho, colocou a caixa d'água na montanha e fez nela uma abertura para captar a água do manancial. Depois, soldou 20 metros da tubulação no extremo inferior do recipiente e estendeu tubulações de 700 metros até uma clareira na divisa do distrito.
E a água fluiu. “Esse dia foi uma celebração. Aconteceu um milagre. Não acreditávamos dele, depois da recusa do Masaf, mas Chimombo seguiu adiante com os garotos de seu negócio”, recorda Eluby. Mas esse ponto de água ainda estava longe para muitos habitantes do distrito. Chimombo estendeu a linha de distribuição principal em outro 1,5 quilômetro, até um segundo quiosque de duas torneiras.
Ele estava abastecendo o distrito de água de forma gratuita. Mas seu negócio sofreu devido ao fato de que ele continuava a pôr dinheiro na execução do projeto. Em 2000, os moradores decidiram começar a pagar “como uma forma de agradecer a ele”. Hoje, eles compram águam por quatro centavos de dólar por 20 litros, um centavo a mais do que nos quiosques da Junta.
Apropriação social
O sistema de Chimombo expandiu-se a 20 quiosques alimentados por três fontes da montanha. Eles fornecem água durante as 24 horas do dia. Seus três “reservatórios”, agora substituídos por cisternas de concreto, são limpos por dentro uma vez por mês, momento em que a água também é tratada com cloro fornecido pela Câmara Municipal de Blantyre. Como se negou a se apossar do projeto, Chimombo entregou a gestão de 16 quiosques a outras pessoas.
Elas mantêm a rede e fiscalizam a venda de água em suas regiões. O dinheiro é delas. Dos quatro quiosques a seu cargo, Chimombo coleta cerca de 14 dólares diários de cada um. Uma ONG local, a Sustainable Rural Growth and Development Initiative, vinculou o grupo à Câmara Municipal para se capacitar em administração. Além disso, a entidade apoia a restauração da floresta, que foi objeto de degradação, e a expansão da rede a localidades próximas com baixa densidade de população.
O diretor-executivo da ONG, Maynard Nyirenda, disse que a invenção de Chimombo ilustra como o Maláui pode explorar seus vastos recursos hídricos para eliminar os problemas de fornecimento. Ironicamente, sua inovação não alcança sua própria casa. Sua esposa caminha por cerca de 20 minutos até um dos quiosques de água. Ocasionalmente, eles conseguem pegar água da torneira da Junta de Água no seu pátio.
Mas esses dias são muito raros, diz Chibombo. “Estou satisfeito porque isso que começou como algo pequeno beneficiou milhares de pessoas. Ainda existem moradores que pegam água de córregos poluídos, mas acho que isso mudará à medida em que o projeto cresça”.
Para Sphiwe Adams, os moradores do distrito de Naotcha nunca poderão agradecer a Chimombo o suficiente. “Só Deus sabe como agradecer a ele”, diz, enquanto levanta seu balde em um dos quiosques.
Tradução: Igor Ojeda