É interessante, embora também trágico, que a expressão genocídio tenha surgido tão tardiamente na história. Somente em 1944, através da obra "Axis Rule in Ocupped Europe", do jurista polonês de origem judaica Raphael Lemkin, elaborou-se um estatuto jurídico específico aos crimes de guerra em massa e aqueles praticados contra as minorias étnicas, religiosas ou culturais durante a Segunda Guerra Mundial. Mais tarde as Nações Unidas (ONU), em 1948, inscreveu o genocídio nos seus estatutos enquanto o mais grave crime contra a humanidade.
Na sua definição exata, conforme, a ONU, genocídio se caracteriza como "a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. O genocídio se dá através de atos mortais contra membros de um grupo determinado, atingindo a integridade física ou mental dos mesmos, ou ainda, submetendo-os intencionalmente a condições de vida que impliquem na destruição, mesmo que parcial, do grupo. Da mesma forma, trata-se de genocídio quaisquer medidas visando esterilização, ou a impossibilidade de reprodução física e natural, do grupo, inclusive a transferência, adoção ou internação de bebes, crianças ou adolescentes, de forma a suprimir a capacidade própria de reprodução física e cultural do grupo específico". O genocídio depois passou, a partir de decisão da ONU de 1968, a ser um crime imprescritível, tendo a ONU autoridade para criar tribunais específicos para a punição de tais crimes (como o Tribunal de Haia, para os crimes na ex-Iugoslávia, ou de Arusha, para Ruanda).
Contudo, a própria origem e a conceituação jurídica de genocídio prende-se a experiência do Holocausto judaico na Segunda Guerra Mundial e do seu impacto sobre a consciência mundial, independente da condição social, étnica ou religiosa. O Holocausto, porém, não foi nem o primeiro nem o único genocídio do século XX. Embora não existam dúvidas - honestas - sobre o caráter genocidário do Holocausto e da sua insuperabilidade enquanto crime sistemático, coletivo e intencional cometido contra os judeus, surgiram grandes debates na caracterização e extensão do conceito de genocídio. Assim, historicamente o primeiro genocídio no século XX seria o assassinato sistemático de armênios, em 1915, pelo exército turco, durante a Primeira Guerra Mundial. Da mesma forma, os ciganos, perseguidos pelo nazismo no Terceiro Reich seriam alvos do genocídio hitlerista. Depois da Segunda Guerra Mundial, deveríamos somar a esta lista o massacre dos cambojanos durante o regime do Khmer Vermelho, e a matança generalizada dos tutsis em Ruanda.
Sem qualquer dúvida, o Holocausto judaico, trauma insuperável da história, com suas características inumanas e monstruosamente grandiosas, permanece como paradigma, consciente ou inconscientemente, para os demais fenômenos ditos correlatos. Assim, pode-se falar de um genocídio dos armênios praticado pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial. Tratava-se na ocasião, em meados de 1915, de um grande medo por parte do regime nacionalista dos chamados Jovens Turcos - oficiais do exército otomano - de que os armênios servissem de ponta de lança da invasão dos aliados. Assim, quando ingleses e australianos desembarcam na região turca de Galípoli, iniciam-se as matanças de armênios. Primeiro são soldados alistados, depois a população masculina e, por fim, mulheres, crianças e velhos submetidos a longas marchas da morte, obrigados a se deslocar a pé por centenas e centenas de quilômetros através de regiões desérticas, sendo constantemente fustigados pelas populações turcas. Mais de um milhão de mortos e a deportação de outros milhares em direção a Rússia (limpeza étnica) marcam o genocídio armênio.
Genocídio ou genocídios
Com o avançar das pesquisas, concluiu-se que o primeiro genocídio do século foi cometido pelas tropas de ocupação alemãs contra a população nativa da Namíbia, então Sudoeste Africano Alemão. Desde 1885, os alemães procuravam estabel
O Holocausto ou o dever da lembrança
Por Francisco Carlos Teixeira: Realizou-se em Teerã um esdrúxulo exercício de estupro da história, em que o Estado iraniano decidiu 'avaliar' a existência ou não do Holocausto. Para isso convidou reconhecidos negacionistas e religiosos ortodoxos contrários à existência de Israel. Missão: negar o mais terrível crime coletivo do século XX. (Leia Mais)
Sábado, 16 de Dezembro de 2006 às 10:48, por: CdB