Rio de Janeiro, 10 de Outubro de 2026

O gozo de cada dia

Segunda, 08 de Agosto de 2011 às 09:03, por: CdB

Tomeiem mãos, uns dias atrás, um livro publicado há mais de dez anos, mas que nãoperdeu nada em termos de atualidade. Trata-se do livro ‘Rompendo o Silêncio’ (Vozes, 2000) da autoria de IvoneGebara. Eis um livro que me parece apropriado para os tempos que vivemos, poisdemonstra sensibilidade pelos pequenos gestos de libertação em meio a umuniverso de opressão.

Ateologia da libertação tem insistido muito, e com razão, nos aspectos negativose até deprimentes da formação do Brasil e da América Latina. O continente anda curvadosob o peso de tantas injustiças. Os noticiários de cada dia ainda aumentam aimpressão de impotência e levam a abandonar a luta pela melhoria do mundo.

Masexiste algo que não pode ficar despercebido e Gebara faz muito oportunamente ocontraponto, a partir de sua experiência de vida num bairro periférico deRecife. Ela apresenta a vida como sendo ao mesmo tempo perdição e salvação,pecado e graça, paixão e ressurreição. Não a gloriosa ressurreição do fim dostempos, mas a mini-ressurreição de cada dia, que dá coragem para viver. Umgesto, um olhar, uma mão estendida, tudo pode ser a salvação em momentos desofrimento.

Asolidariedade do terceiro mundo contrasta vivamente com a ‘nova pobreza’ doprimeiro mundo, onde existe menos solidariedade entre as pessoas e onde há quemmorre na mais completa solidão. Afinal, mesmo sem ter acesso a uma boa educaçãoformal, o povo destas terras vive a teologia da solidariedade com sabedoria,assimila com naturalidade as contradições na vida, aprende na dura sorte que avida é contraditória, ou seja, bonita e feia ao mesmo tempo.

Acultura popular, ao mesmo tempo em que manifesta evidente sofrimento, revelanão menos evidente alegria, uma combinação entre dor e festa, privação e sensode abundância. Cultiva-se um agudo senso por pequenos sinais de salvação eprazer no meio da favela, da miséria. O que há de mais bonito em movimentoscomo o dos Sem Terra (MST) é essa experiência de salvação imediata einstantânea: um gesto de solidariedade e estima, ajuda e bondade. O momento presenteé momento de salvação.

Essainsistência no gozo do momento não costuma ser feita pelos pregadores cristãos,sejam eles católicos ou evangélicos, pois costuma-se ensinar que o cristão temde lutar agora para poder gozar depois.

Asigrejas dizem: ‘Ainda não é tempo degozar, é tempo de lutar’. Mas isso não funciona na vida concreta, pois aía luta muitas vezes é sem perspectiva à vista. A pessoa que luta a vida toda enunca goza, acaba cansando e finalmente abandona a ‘luta’.

Nasua sabedoria, o povo sabe alternar a luta com o gozo. E Ivone Gebaraacrescenta: um dos grandes ‘fenômenos’ da vida nos meios populares está nessaaparente contradição. O povo sofredor é um povo alegre. Como diz o blococarnavalesco: ‘Nós sofre, mas nós goza’. É isso que atrai as pessoas. A maturidadee sabedoria do povo fazem com que as pessoas não acreditem muito nasmega-libertações, mas se alegrem com as mini-libertações de cada dia. Sinal deuma admirável capacidade em superar o sofrimento por um indestrutível otimismo,uma coragem para viver ‘aqui e agora’, de passar por cima de muita coisa parapoder viver. Eis a tática, eis a metodologia. Na medida em que a pessoamelhora, o mundo melhora. Recomendo vivamente o livro de Ivone Gebara ‘Rompendoo silêncio’. Leitura que enriquece!

Tags:
Edições digital e impressa