Rio de Janeiro, 12 de Maio de 2026

O governo Lula em perspectiva histórica

Por César Benjamin - A primeira síntese historiográfica abrangente do Brasil foi feita no início da década de 1850 por Francisco Adolfo de Varnhagen, um destacado intelectual da monarquia. Apesar dos esforços posteriores de Capistrano de Abreu, Manoel Bonfim e outros autores, ela só veio a ser definitivamente superada quase cem anos depois, com a publicação de A formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado Jr., em 1942. (Leia Mais)

Quarta, 24 de Agosto de 2005 às 08:50, por: CdB

A primeira síntese historiográfica abrangente do Brasil foi feita no início da década de 1850 por Francisco Adolfo de Varnhagen, um destacado intelectual da monarquia. Apesar dos esforços posteriores de Capistrano de Abreu, Manoel Bonfim e outros autores, ela só veio a ser definitivamente superada quase cem anos depois, com a publicação de A formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado Jr., em 1942.  Entre as inovações que introduziu, Caio percebeu que a colonização do Brasil representou um problema novo, pois os padrões mais conhecidos de dominação usados ao longo da História - a pilhagem de riquezas acumuladas, a cobrança de tributos e o estabelecimento de comércio desigual - não se aplicavam nestas terras sem metais preciosos (no século XVI) e habitadas por tribos dispersas, que viviam no Neolítico.

A solução do problema demandou mais de trinta anos e exigiu a invenção de um novo padrão. Organizou-se finalmente uma empresa territorial de grande dimensão, com administração portuguesa, capitais holandeses e venezianos, mão-de-obra indígena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e matéria-prima dos Açores - a cana. Esses elementos foram articulados em uma holding multinacional movida por força de trabalho escrava, mas regida pelo cálculo econômico e pela busca do lucro. Tudo o que existia aqui - a paisagem, a fauna, a flora e as gentes - teve de ser decomposto e desfeito, depois recomposto e refeito, de outras maneiras, para que o empreendimento mercantil prosperasse.

Na origem, diz Caio Prado, não fomos uma nação, nem propriamente uma sociedade. Fomos uma empresa territorial voltada para fora e controlada de fora. A empresa-Brasil sempre deu certo: propiciou bons negócios e gerou altíssimo lucro. Paulatinamente, porém, desenvolveram-se os elementos constitutivos de uma nova nação: "Povoou-se um território semideserto; organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui, dos indígenas e suas nações, como também da dos portugueses que empreenderam a ocupação. Criou-se no plano das realizações humanas algo novo (...): uma população bem diferenciada e caracterizada, até etnicamente, habitando determinado território; uma estrutura material particular, constituída na base de elementos próprios; uma organização social definida por relações específicas; finalmente, uma consciência, mais precisamente uma certa 'atitude' mental coletiva particular. (...) Esse novo processo histórico se dilatou e se arrasta. Ainda não chegou ao seu termo."

A partir desse olhar, Caio propõe a hipótese forte de que a história do Brasil tem um sentido profundo, o da transformação dessa empresa-para-os-outros, que sempre fomos, em uma nação-para-si, que desejamos ser. Completar esse processo, "fazê-lo chegar ao seu termo" - ou seja, realizar a Revolução Brasileira - é fazer desabrochar a última grande nacionalidade do Ocidente moderno, uma nacionalidade tardia, cujos potenciais permanecem em grande medida incubados.

Isso depende, fundamentalmente, do amadurecimento do agente construtor dessa nova nação: o povo brasileiro. Nesse ponto, a obra do historiador Caio Prado precisa ser completada com a do antropólogo Darcy Ribeiro. Apaixonado pelo Brasil, este último nos mostrou que tivemos pelo menos um grande êxito: aos trancos e barrancos, conseguimos fazer um povo-novo a partir dos grupos humanos que o capitalismo mercantil encontrou neste território ou transplantou para cá - na origem, índios destribalizados, brancos deseuropeizados e negros desafricanizados, depois gente do mundo inteiro.

Darcy estudou as características fundamentais desse contingente humano filho da modernidade, o maior povo-novo do mundo moderno. Viu que é também um povo-nação, reconhecendo-se como tal, falando uma mesma língua, habitando um território bem-definido e tendo criado o seu próprio Estado. Inverteu radicalmente os velhos argumentos europeus contra nós, afirmando as vantagens da mestiçagem tropi

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