Rio de Janeiro, 05 de Setembro de 2026

O golpe da direita

Por Flávio Aguiar - Disse o ministro Cristovam Buarque que entre as suas preocupações estava a de que, se houvesse hoje um golpe de direita no Brasil, nenhum professor ou estudante de universidade seria cassado. Não é bem assim. (Leia Mais)

Quarta, 10 de Dezembro de 2003 às 09:08, por: CdB

Na semana passada disse o ministro Cristovam Buarque que entre as suas preocupações estava a de que, se houvesse hoje um golpe de direita no Brasil, nenhum professor ou estudante de universidade seria cassado. Mas a coisa não é bem assim. Em primeiro lugar, já que estamos quase comemorando os 40 anos da Redentora, é bom lembrar como certas coisas se deram, e como as coisas eram. Há 40 anos quase não havia universidades privadas no país. Havia as PUCs, e mais uma ou outra. O resto era tudo universidade pública, federal ou estadual.
Nelas, o movimento estudantil tinha uma pujança que, é verdade, hoje não tem. Mas o país tinha um sonho de transformação que hoje, a bem da verdade, não tem. Só se por "sonho" a gente entender a boa administração do capitalismo vigente o que, é fato, já é uma proeza digna de nota.

Não havia movimento de funcionários, não havia sindicatos. Nas grandes escolas tradicionais - Medicina, Engenharia, Direito - os professores de esquerda eram muito poucos. Havia bolsões significativos de um pensamento radical, nem sempre de esquerda, mas seguramente à esquerda, naquele país que completava sua passagem do mundo agrário-exportador para essa loucura urbana de hoje. Esses bolsões se situavam em poucos departamentos das Faculdades de Filosofia, numa ou outra escola novidadeira, como as de Arquitetura.

Isso facilitou os trabalhos da repressão. Todas as listas de expurgos, de cassações, de aposentadorias forçadas, de expulsão de estudantes foram preparadas dentro das próprias universidades. Não raro a disputa por posições internas se revestiu de cores ideológicas para justificar o afastamento de colegas indesejáveis. E também não raro professores conservadores, porém íntegros, foram incluídos nas listas por não serem cúmplices da canalhice das denúncias.

Hoje, nas universidades públicas brasileiras, uma situação destas é impensável, embora, neste mundo pós-moderno, deve-se reconhecer, não haja o que não haja. Uma cena com professores reunidos fazendo listas para cassar colegas, expulsar funcionários, dedar estudantes é absolutamente inverossímil. Vontades talvez não faltem; mas faltam condições.

Há por certo o oceano das universidades e faculdades privadas, encapelado e fora de controle. Mas nelas, com as exceções honrosas que devem ser reconhecidas, as vocações já nascem cassadas e as idéias já andam de asas cortadas. Veja-se a recorrente aparição, pelo menos em São Paulo, do deputado federal Vicentinho e do presidente da CUT, Luís Marinho, como garotos-propaganda de uma delas.

Mas a questão posta pela frase do ministro não é bem esta, de se haveria professores e estudantes cassados. A questão levantada é a de por que, afinal, a direita iria querer depor o governo Lula? Acho mais provável que ela isto sim queira, como vem fazendo, expurgar alguns ministros, como Miguel Rossetto no ministério encarregado da Reforma Agrária, e por outros numa linha mais dependente da área econômica, como o Ministério das Relações Exteriores. Voltaremos ao assunto.

Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.

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