Rio de Janeiro, 18 de Setembro de 2026

O Futuro dos Livros

Por Nehemias Gueiros, Jr. - Passados quase 20 anos do advento em escala global da Internet, um último bastião comercial ainda não aderiu completamente à era digital: Os livros. O pentacentenário modelo de negócios da literatura ainda resiste bravamente, pois os editores temem que ocorra com os livros o mesmo que aconteceu com a música desde a virada do século: A napsterização de seu conteúdo. (Leia Mais)

Sexta, 09 de Outubro de 2009 às 06:46, por: CdB

Passados quase 20 anos do advento em escala global da Internet, um último bastião comercial ainda não aderiu completamente à era digital: Os livros. O pentacentenário modelo de negócios da literatura ainda resiste bravamente, pois os editores temem que ocorra com os livros o mesmo que aconteceu com a música desde a virada do século: A napsterização de seu conteúdo, que inevitavelmente levaria ao seu desaparecimento. Será que os livros sobreviverão a este hiper-rápido mundo digital, composto de elétrons que se movem pelo planeta na velocidade da luz? À medida em que os livros iniciam a migração para a Internet, novas questões, tanto comerciais quanto filosóficas, se fazem presentes. Como as pessoas lerão livros no futuro? A tecnologia irá “desencaderná-los” como fez com outros suportes como os LPs e CDs? O que é um livro, na realidade? O certo é que a mudança deverá ser lenta no âmbito físico dos livros.

Há alguns anos já existem os e-books ou livros eletrônicos, mas o formato ainda não pegou. Nem mesmo com as tentativas das grandes editoras internacionais desde 2001 e as duas mais recentes tecnologias do Sony Reader e do Amazon Kindle. Uma das categorias de livros que já foi afetada pelo e-book, por exemplo, foram as enciclopédias. Somente a Wikipedia, de formato colaborativo, que qualquer um pode editar, já representou uma queda substancial nas vendas de suas congêneres impressas. O que nos leva a perceber que aqueles livros que não costumamos ler integralmente ou que necessitem de atualização constante (livros técnicos em geral), deverão migrar para a rede mais rapidamente e até deixarem de ser impressos dentro de algum tempo. Dicionários, listas telefônicas, de receitas etc., inserem-se nesta categoria.

Uma coisa é certa, precisamos deixar de pensar apenas no futuro da impressão gráfica para pensar no futuro da leitura. De toda sorte, remanesce a pergunta mais importante com relação ao segmento: Será que os livros sobreviverão neste universo eletrônico do Facebook, do Orkut, do Twitter e dos blogs? Todas as demais formas de mídia que aportaram no mundo digital foram inteiramente transformadas por seus usuários. Antigamente, uma notícia de jornal importante, que gerasse grande polêmica ou sucesso, era geralmente “suitada” nos dias seguintes pelos próprios jornais impressos e, em menor escala, pelo rádio e pela televisão. Hoje, qualquer matéria de jornal ou clipe de TV que chega à Internet, é imediatamente bombardeada por comentários em blogs, sites e páginas da Web, ampliando exponencialmente seu alcance informativo e tornando a informação instantaneamente acessível em nível planetário. A única razão pela qual isto ainda não acontece com os livros é porque estes estão confinados em tinta sobre o papel. Liberte-os, e um universo muito maior se desencadeará.

Vários sites já perceberam esta tendência e estão inserindo livros na rede, com ferramentas que possibilitam aos usuários comentarem-nos, criarem debates, blogs e grupos de discussão sobre as obras. São iniciativas que, na realidade, apenas revisitam duas das mais importantes e centenárias características dos livros impressos: comentários e anotações, começando pela própria Bíblia, livro milenar escrito por inúmeras mãos. Esta nova forma de fruir os livros, está criando uma nova geração de leitores, cujos comentários e anotações adquirem grande valor para a sociedade e, muito em breve, deverão até ser comercializados. Por outro lado, a exposição que os livros adquirem com esta apreciação global das obras literárias traz à tona novas oportunidades de apreciação das obras literárias e novos valores de retorno econômico para autores e editores. Esta prática, ainda incipiente, terá o condão de tornar muito mais acessíveis um número incalculável de livros, na medida em que as pessoas se sentirão tentadas a examinar uma obra dedicadamente comentada e anotada por amigos, conhecidos e colegas de trabalho.

Quantas vezes, diante de um livro maçudo, desistimos até de folheá-lo por falta de informações resumidas e distintas de seu conteúdo? E a contrapartida desse movimento de leitura – e comentários – virtual, por incrível que pareça, é uma maior venda de livros físicos, impressos. A maioria dos poucos autores que experimentou inserir suas obras online em forma gratuita, acabou descobrindo que as vendas de suas criações aumentaram, porque mais pessoas tomaram conhecimento delas. Não podemos esquecer que um dos maiores prazeres da leitura física é completamente eliminado na leitura eletrônica: a capacidade de cada indivíduo de atingir estados mentais únicos e paisagens e inigualáveis enquanto lê com dedicação e atenção os pensamentos e as ideias do autor, mas a migração digital dos livros está gradativamente revelando um novo e verdadeiro valor: O leitor.

Nehemias Gueiros, Jr. é advogado especializado em Direito Autoral, Show Business e Direito da Internet, professor da Fundação Getúlio Vargas-RJ e FGV-SP e da Escola Superior de Advocacia - ESA-OAB/RJ, consultor de Direito Autoral do ConJur, membro da Ordem dos Advogados dos Estados Unidos e da Federação Interamericana dos Advogados em Washington D.C. e sócio do escritório Duarte, Carvalho Neto & Gueiros Advogados no Rio de Janeiro.

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Edições digital e impressa