No Brasil a alimentação fora de casa aumenta de forma exponencial. Isso representa lucratividade não só para o ramo alimentício, mas, também para toda engrenagem de crescimento do País, com geração de empregos, escoamento da produção industrial alimentícia etc. Por outro lado, tenho plena convicção que esse modelo - alimentação na rua - vai ser nocivo para a história gastronômica. Lembro-me bem que, quando era pequeno, todos os domingos almoçávamos e lanchávamos na casa de vovó. Todos ajudavam, ela nunca teve uma ajudante. Hoje, para a maioria das famílias brasileiras que podem ir a um restaurante, essa opção de almoços em casa está cada vez mais rara. Vai dar muito trabalho, no final todos vão embora e eu que tenho que arrumar e limpar tudo, no dia seguinte tenho que acordar cedo, e assim por diante. Pasmem, mas minha avó nunca comeu um sanduíche de bobs ou mcdonalds, todos os hamburgueres, mistos quente, kibes, esfiha sempre foram feitos por ela. Tenho familiares na Itália e chama atenção o fato de não admitirem, a não por motivo especial, que se faça uma refeição em um restaurante. Logo indagam: restaurante, para quê, quero que fulano prove a melhor, polenta, risotto ou pasta que ele pode comer, ou seja, aqui em casa, feita por mim exatamente como minha mãe me ensinou. Esse discurso de igual a minha mãe me ensinou eu sempre ouvi na geração da minha avó. Será que nossos filhos irão repetí-lo? É um prazer instântaneo quando comemos um prato que nos remete à nossa infância. Quais serão os pratos caseiros que nossos filhos estão carregando na memória gustativa. Será o hamburguer caseiro ou do fast food? Indiscutível, também, que a restauração no Brasil evoluiu muito. Temos restaurante que ocupa a posição entre os 30 melhores do mundo, além de uma boa gama de excelentes estabelecimentos espalhados por todo país. Mas isso demonstra a nossa força gastronômica. Está cada vez mais raro, aqui na Bahia, você comer em uma localidade de praia moqueca acompanhada de feijão, o que é uma instituição entre as famílias de pescadores. Vá a Itacaré, Praia do Forte, Pipa com certeza encontrará leito disso, redução daquilo, mousselines, toques, espumas, cogumelos, mandioquinha. Em suma, além de estarmos perdend a essência gastronômica, que é, ao meu juízo, a alimentação caseira do dia a dia, o nicho da restauração ou está fadado à alimentação de massa, abusando de caldos, bases, pós industriais ou, na sua grande maioria, em cardápios pasteurizados que, longe de primar por imprimir técnicas àquela cozinha do dia a dia do local que está inserido, implementa menu idêntico, sem personalidade e origem, em todos os recantos desse país continental. Garanto que, a partir de hoje, meus conhecidos, que vierem a Salvador, irão comer a melhor moqueca da vida deles na minha casa. Flavio Vitari é chef de cozinha e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras. Edita também a página www.flaviovitari.com.br
O futuro da gastronomia
Por Flavio Vitari - No Brasil a alimentação fora de casa aumenta de forma exponencial. Isso representa lucratividade não só para o ramo alimentício, mas, também para toda engrenagem de crescimento do País, com geração de empregos, escoamento da produção industrial alimentícia etc.
Sexta, 13 de Agosto de 2010 às 04:26, por: CdB