Rio de Janeiro, 07 de Abril de 2026

O fim do fim do mundo

O fim da CPI do Fim do Mundo, cujo codinome de fantasia era "CPI dos Bingos", não podia ser mais melancólico. De bingo, a CPI nada investigou, nada apurou, limitando-se a pedir a legalização do jogo e destinação de parte de sua arrecadação para construção de presídios e compra de equipamentos para a polícia. Quer dizer, de certo modo a CPI evoluiu de ser "sobre" os bingos para se transformar numa espécie de lobby pela legalização definitiva das casas já existentes, que hoje funcionam com base em liminares. (Leia Mais)

Sexta, 23 de Junho de 2006 às 08:11, por: CdB

O fim da CPI do Fim do Mundo, cujo codinome de fantasia era "CPI dos Bingos", não podia ser mais melancólico. De bingo, a CPI nada investigou, nada apurou, limitando-se a pedir a legalização do jogo e destinação de parte de sua arrecadação para construção de presídios e compra de equipamentos para a polícia. Quer dizer, de certo modo a CPI evoluiu de ser "sobre" os bingos para se transformar numa espécie de lobby pela legalização definitiva das casas já existentes, que hoje funcionam com base em liminares.

O que era melhor para o país, se legalizar o que existe, campo onde as acusações de lavagem de dinheiro são pesadas; ou se reformular a base de funcionamento do jogo, isso a CPI deixou em branco. Com o passar do tempo e o desarme das outras CPIs, ela tornou-se o palanque preferido das oposições para gerar as declarações e manchetes que serão utilizadas nas próximas eleições.

Do ponto de vista legal, a CPI produziu um resultado que beira o inócuo, por ter extrapolado sua finalidade. Do ponto de vista político, ainda que a imprensa conservadora alardeie "mais uma derrota" do governo na votação do relatório, o resultado também foi pequeno em relação ao pretendido pelas oposições. A CPI não conseguiu atingir o presidente Lula. O episódio do caseiro Francenildo teve um resultado forte, ainda que mais por erros no interior da equipe do governo, do que por presteza ou inteligência das oposições, que foi a demissão do ministro Palocci.

Mas este tiro saiu pela culatra. Apesar da queda de um Ministro da Fazenda não ser acontecimento trivial em governo nenhum, na verdade seu afastamento livrou o governo de um peso que se tornava e se tornaria cada vez mais incômodo. Além disso, a leve inflexão à esquerda possibilitada pela troca de Palocci por Mantega abriu o caminho para que o governo renovasse seu perfil na área econômica, ainda que a reafirmação das linhas mestras da política passada fossem reafirmadas retoricamente.

Em suma, em termos de composição, o governo saiu melhor do que entrou no episódio desta e das outras CPIs. Saiu questionado e com afastamentos provocados pelas denúncias e seus desdobramentos políticos. Mas sem dúvida a presença, hoje, nas proximidades da sala do presidente, de Dilma Roussef e de Tarso Genro reforça a linha de defesa e o meio do campo do governo (já que estamos em época de Copa).

Por isso, pela falência de suas estratégias em desacreditar o governo, as oposições elevaram o tom, voltando a falar de alegados excessos alcoólicos do presidente (nas palavras do vice da chapa de Alckmin, na verdade procurando pegar carona na falsa polêmica provocada pelas declarações inadequadas e equivocadas de Ronaldo). O lance é desesperado, mas talvez seja o único que resta às oposições pelo menos de momento.

Por outro lado as baterias do pensamento conservador voltaram-se para as políticas sociais do governo e a política de elevação do salário mínimo. A chave mestra do argumento é que estes dois movimentos no futuro médio ou próximo provocarão a insolvência do país e da área pública, comprometendo investimentos e onerando os orçamentos de tal forma que será inevitável um aumento da carga tributária.

O argumento esbarra em dois contrários: a elevação substantiva do mínimo (segundo declarações oriundas do Dieese, já reproduzidas nesta coluna) é a mola mestra de uma política de redistribuição de renda no país. O seu efeito é benéfico porque estimula o consumo interno, gera mais arrecadação sem aumento da carga tributária, aumenta a procura dos bens de salário - remédios, alimentação e vestuário - baixando, portanto, os preços, ou pelo menos neutralizando os aumentos. No limite uma política consistente de elevação do salário mínimo torna-se um estímulo ao crescimento econômico sustentável sem comprometer as exportações, porque o caminho a percorrer até que elevação de salários possa compromete-las é muito longo, dado o nível ainda baixo da remuneração básica praticada no paí

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