O fim do fim da guerra
Por Flávio Aguiar - Afinal, terminou ou não terminou? Não, não terminou. Jamais terminará. Não por causa da dubiedade da retórica de Bush, mas porque uma guerra termina com o seu balanço. E não o temos. (Leia Mais)
Quinta, 08 de Maio de 2003 às 21:41, por: CdB
Everybody knows the war is over,
Everybody knows the good guys lost.
(Todo mundo sabe que a guerra acabou,
todo mundo sabe que os mocinhos perderam)
Leonard Cohen
(cantor e poeta canadense)
O presidente Bush declarou o fim da guerra. O presidente Bush declarou que a guerra não tem fim. Qual das duas proposições é a verdadeira? As duas. A primeira, porque o presidente Bush, qual mocinho em fim de faroeste, precisa anunciar ao público - sobretudo o interno - que os Estados Unidos "ganharam". A segunda, porque o presidente Bush precisa se reeleger (ou dar novo golpe) em 2004, e sem a guerra ele corre sério risco de não conseguir.
Pouco importa se os Estados Unidos não conseguiram encontrar nem armas químicas nem Saddam Hussein, assim como não conseguiram encontrar Bin Laden (uma piada mórbida sobre o tema diz que o Brasil poderia enviar o dr. Badan Palhares para ajudar a identificar o corpo de Saddam).
A guerra "terminou" porque as grandes batalhas terminaram. A guerra não "terminou" porque sob a ocupação norte-americana e britânica ela continua, pois é contra o terror, e agora contra a possibilidade de haver mais uma nação fundamentalista no Oriente Médio.
O papel da imprensa e das imagens
De todas as guerras, esta foi até hoje a mais deflagrada para construir imagens. Recapitulemos um pouco guerras passadas.
A guerra do Vietnã ficou famosa e despertou tantos protestos pelo mundo afora e dentro dos Estados Unidos, em parte porque as imagens desmentiam a retórica oficial. Essa retórica, brilhantemente analisada por Noam Chomsky no livro "Banhos de sangue" ("Bloodbaths"), era a de atribuir ao inimigo aquilo que as próprias tropas norte-americanas e sul-vietnamitas estavam praticando, isto é, banhos de sangue para reprimir e intimidar a população, impedindo-a de se aproximar dos vietcongues e dos norte-vietnamitas.
Desta forma a retórica "recobria" as atrocidades da guerra, atribuindo-as sistematicamente ao "outro lado". Mas acontece que além das denúncias de jornalistas corajosos, como o australiano Wilfred Burchett, as imagens que chegavam iam solapando a retórica oficial. Eram imagens como a da menina atingida pelo napalm correndo na rua; a de um soldado norte-americano torturando um vietcongue, enfiando-lhe uma faca na barriga; o oficial sul-vietnamita executando um vietcongue com um tiro na cabeça e assim por diante. A retórica oficial e a para-oficial da imprensa não resistiram, e essa falência certamente ajudou os protestos contra a guerra.
No caso da Guerra do Golfo, as imagens sobre a guerra viraram uma espécie de pirotecnia. Foi a primeira vez, penso, que se experimentou em tempo real que a construção de imagens poderia recobrir a realidade da guerra com uma outra significação, não apenas reproduzindo versões sobre o campo de batalha, mas sendo ela mesma uma arma no campo de batalha, ou frente ao campo de batalha, enquanto a batalha estava acontecendo.
No caso desta guerra, a inovação tecnológica (transmitir o bombardeio ao vivo enquanto ele está acontecendo, e sob a forma "pirotécnica" dos bombardeios noturnos) criou um clima de "novidade" que suplantou o horror da guerra. Uma guerra só é bonita em filmes de ficção; todos os documentários passados, por mais que elogiem algum vencedor, exibem sempre em primeiro plano o horror da guerra. A transmissão ao vivo transformou a guerra num espetáculo a mais; banalizou a guerra, ao invés de exibir mais ainda o seu lado cruento e cru.
A novidade da invasão do Iraque em 2003 foi que em nenhuma outra ocasião uma guerra começou com tanta oposição no mundo inteiro. Os protestos foram para as ruas antes mesmo dela começar: nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Austrália, na Espanha, depois em Porto Alegre (no Fórum Social Mundial) e daí para cidades de todo o mundo no dia 15 de fevereiro. E os protestos não pararam aí, nem vão parar: protesta-se tanto contra a invasão de um país quanto contra o império norte-americano.
No caso do Vietnã, por exe