Dezembro é o mês dos balanços anuais. Vamos começar por assunto sobre o qual eu sempre quis escrever nesta coluna, mas nunca me dei uma oportunidade: futebol.
O campeonato brasileiro se definiu no fim de semana que passou. O Cruzeiro foi merecidamente o vencedor, e por antecipação. Sem dúvida isto vai levantar todos os argumentos contra o campeonato por pontos corridos e a favor do sistema do mata-mata. Falta a emoção da final, falta a renda da final, falta tudo o que uma final teria. Mas na verdade, para quem assistiu os jogos decisivos no último domingo, tudo estava lá. O Mineirão, em Belo Horizonte, estava lotado. O Serra Dourada, onde jogavam Goiás e Santos, também. Em ambos os estádios o clima em nada devia a uma final. Sem falar em outras decisões importantes, como a do Grêmio, no desespero para sair da zona de rebaixamento.
O problema da resistência ao campeonato por pontos corridos é de outra natureza. Diz respeito aos valores em torno dos quais o futebol brasileiro e sua percepção hegemônica se organizam.
Olhemos os melhores times de 2003, pela campanha realizada. Bom, aqui certamente já teremos discordâncias. Mas defendo a tese de que os melhores times foram o Cruzeiro, o Goiás e o Palmeiras, este bem secundado pelo Botafogo. O Cruzeiro está entre os melhores porque foi o melhor em quase tudo. O Goiás, pela espetacular campanha no segundo turno, saindo da lanterna, no primeiro turno, para chegar onde chegou e vencer espetacularmente o vice-campeão brasileiro. E o Palmeiras por ter saído de uma situação em que a equipe estava destroçada, sem moral, com auto-estima mais baixa do que pé de mesa, para a situação de ter voltado (sempre é bom dizer que com o Botafogo) à primeira divisão por seus méritos no campo, coisa que nenhum dos outros "grandes" (leia-se: "poderosos") ultimamente rebaixados tinha feito.
Em todos estes casos venceram a solidariedade, o espírito de equipe, o bom banco de reservas, a perseverança, a aplicação, a determinação, o trabalho consciente, a auto-valorização baseada no mérito, a consideração de que cada jogo é decisivo, bem como de que cada posição no time tem igual importância que as demais, e de que cada centímetro do campo deve ser disputado e ocupado com a mesma garra. Do lado dos torcedores, valorizaram-se o amor pela camiseta e a adesão ao time mesmo na adversidade, mesmo quando o time perde, mesmo quando espera décadas pelo merecido título. Enfim valorizou-se tudo o que a nossa hegemonia futebolística despreza, embora se diga o contrário.
O que se valoriza afinal? A construção de craques da noite para o dia; a noção de que ou se ganha sempre ou então vale tudo no desespero da derrota, desde derrubar técnico até querer ganhar no grito ou no tapetão; a pressão em cima do adversário através de arruaças e pedradas, em cima do juiz, a pressão em cima dos times menores nessas decisões do nosso estilo de mata-mata que mais parecem touradas. De quebra tem-se que agüentar valorização de supostos craques que às vezes sequer treinam e que parecem querer jogar dez minutos em cada jogo, porque são "matadores"; outros que se revelam verdadeiros maus caracteres dentro e fora do campo. E para os torcedores valoriza-se, em vez da paixão pelo time, a idéia da satisfação imediata e a qualquer preço. Esse clima só favorece que o torcedor frustrado veja na porrada a única compensação possível.
O passado pode ter lições não desprezíveis, por vezes. Pelé era um "matador", sem dúvida. Mas é o melhor jogador de todos os tempos porque era o mais completo, capaz de jogar em todas as posições (até de goleiro), e o tempo todo, todo o tempo. E é bom lembrar que em 58 quem foi eleito o craque da Copa foi Didi, aquele que o Nelson Rodrigues dizia vestir um manto de arminho quando corria em campo.
Por fim deve-se considerar que tanto um sistema como o outro (mata-mata e pontos corridos) têm qualidades e defeitos. A questão é que os valores que se concentraram em torno d
O fim do campeonato
Por Flávio Aguiar - Dezembro é o mês dos balanços anuais. Vamos começar por assunto sobre o qual eu sempre quis escrever nesta coluna, mas nunca me dei uma oportunidade: futebol. (Leia Mais)
Quinta, 04 de Dezembro de 2003 às 07:02, por: CdB