Rio de Janeiro, 21 de Outubro de 2026

O (des)tombamento e os (des)Encontro

Quarta, 24 de Agosto de 2011 às 09:46, por: CdB

[O belíssimo Encontro das Águas, no Amazonas, tombado como PatrimônioNatural da Humanidade, corre o risco de ser desfigurado pela ganância deempresários, abençoados pelo governador vendilhão Omar Aziz.
Mas eis que se insurge o filho das águas, o ribeirinho amazonenseMapinguari do Manaquiri, com sua espada-cordel!
Mais informação]

O (des)tombamento e os (des)Encontro*

Caboco(a) amazonense
O tombo que eu vô contá
Não é uma queda! Pense!
Veio é lá de Portugá
Esse tombo tão falado,
de lá da terra do fado,
duma torre bem bunita
onde tudo é registrado,
donde veio a bendita
ispressão, "está tombado”!

Desde intão que nóis costuma
pra tudo qui tem valô,
pra qui o tempo num consuma,
pra preservá, sim sinhô!
Chamá Patrimônio Histórico
a samba e grupo folclórico,
tombando praça e ponte,
prédio, casa, mastodonte,
as beleza da cultura
i tantas otra belezura!

I por falá em beleza
quem nunca oviu falá
da obra da natureza
mais porreta que aqui há?
É claro que você sabe,
já dimirô cum certeza,
di recreio ou de rabeta,
no meio da correnteza,
aquele Encontro maceta!

É Encontro di amô
Mas não é amô di gente
Tampouco é de serpente,
Não precisa ter pavô!
Esse Encontro di qui falo
Só os tal dos empresário
(eita povinho otário!)
É qui num vê seu valô!
Pois já foi até tombado
Eita Encontro arretado!

É um Encontro singelo,
Um preto e outro amarelo,
cantado em tantas canções,
o Rio Negro e o Solimões!
Tupã pôs lá um feitiço
i mesmo cum rebuliço,
as água desses dois rio,
mantém sempre o mesmo fio,
dividindo em dois o leito
qui pra juntá num tem jeito

Pois num é qui os impresário
(aquele bando de otário!)
i mais o governadô
(Eita gente sem amô!)
Planejaram distrui
a morada de Dinahi
a casa de Ajuricaba
uma leseira das braba,
botando em riba do Encontro...
Peraí que eu já te conto!

Os besta qué construi
um tal de Porto das Laje
disabrigá Dinahi!
I num pense qui é bobage
já compraro inté juiz
pro Encontro distombá
por mim esses infeliz
podia é se afogá!
Ou no bucho da sucuri
cocô di cobra virá!

Si esse juiz é comprado
isso num posso afirmá!
A serviço do mercado
isso eu sei que ele está!
Como o tal governadô
tem um sobrenome brega
i pra nóis ele mostrô
que a tal justiça é cega,
pra num vê tanta beleza
No Encontro das correnteza!

[*Publicado simultaneamente em http://afinsophia.wordpress.com
http://www.carlosbranco.jor.br
http://www.ncpam.com.br
**Amazonense bastante conhecido no Manaquiri. Se define caboco porformação, biólogo no meio acadêmico e canoeiro por profissão. Mapinguari,alcunha de José Raimundo Laborda, viveu alguns anos no sul, filho deagricultores, alfabetizado aos catorze anos, falecendo recentemente, vítima deDoença de Chagas, desenvolvida trinta anos após um acidente de laboratório comTrypanosoma cruzi.
Ele não chamaria de poema, nem se diria poeta. Dizia que "escreveumas bobage..." Nas horas de intervalo entre uma travessia e outra doIgarapé do Tarumã, em Manaus, (onde trabalhava transportando gente, animais ecarga em sua canoa), Mapinguari do Manaquiri lia aqueles que chama de"escritô di pedigri", como Camões, Machado de Assis, Érico Veríssimoe também os escritores populares, dentre eles, seu predileto, Patativa do Assaré].

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