Rio de Janeiro, 04 de Setembro de 2026

O desabafo do Lula

Por Tarcísio Lage - Uma dúvida que nos ocorreu é se Lula abriu as baterias contra o próprio partido e a presidenta Dilma numa explosão de frustrações estancadas ou se amadureceu o discurso em longas discussões com assessores mais chegados.

Sexta, 26 de Junho de 2015 às 15:39, por: CdB
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Que bicho modeu Lula para sair bronqueando o PT e sua cria, a presidente Dilma?
Uma dúvida que pode nos ocorreu é se Lula abriu as baterias contra o próprio partido e a presidenta Dilma numa explosão de frustrações estancadas ou se amadureceu o discurso em longas discussões com assessores mais chegados. Qualquer que seja a explicação, o fato é que o ex-presidente sabe mais do que ninguém ser o objetivo do juiz vedete Sérgio Moro, promotor do dedurismo premiado, metê-lo atrás das grades. E, de quebra, reduzir o PT a um partido anão ou, se der, destruí-lo de vez. A oposição bate palmas e está certa. Afinal, o juiz da Operação Lava a Jato parece dotado de uma boa viseira para sequer vislumbrar os maus feitos da oposição, além de dispor de uma lente muito especial para filtrar o que dizem seus delatores de estimação. Enfim, a presunção da inocência, preceito básico em qualquer país democrático, está indo para o brejo, empurrada por um juiz com pretensões de se transformar num salvador da pátria. Garanto que é um admirador do Joaquim Barbosa. Mas voltemos à vaca fria. Aliás, quente. Os desabafos de Lula contra a falta de faro político de Dilma e o oportunismo barato de políticos do PT estão longe de esfriar. Auto crítica preventiva de Lula? Pode até ser. Mas o fato tem a ver com a velha história “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.” E Lula nunca foi de ficar parado com tantos raposões graúdos no seu encalço. Corre e com a boca no trombone, enquanto sua pupila prefere pedalar para perder algumas gordurinhas extras. Acorda companheira! Lula está careca de saber que nunca foi aceito plenamente pelas elites. Sobretudo a paulista, com aquele cheiro desagradável e preconceituoso dos barões do café. Para se eleger em 2002, teve de rasgar o programa original do PT e conciliar com a cambada de banqueiros, empreiteiros e políticos vendilhões. Para apreciar o bombom do poder, Lula e o PT, já então desfigurado, tiveram de compartilhá-lo com os que eram descritos claramente como inimigos de classe. E aí começou a debandada dos quadros mais avançados do PT. O partido pendeu para os lados do que foi a velha social democracia europeia, criadora do chamado Estado do bem estar social, enquanto seu principal rival, o PSDB, entrou no trilho do retrocesso representado pela guinada para a direita dos sociais democratas a partir da eleição de Tony Blair no Reino Unido. Ok. O Brasil não é a Europa. E pode ser possível que a influência dos Estados Unidos seja maior. Mas aí também houve uma guinada generalizada para a direita com as duas administrações de Bush. E ainda que Obama tenha promovido a reaproximação com Cuba e se empenhado para socializar o sistema de saúde, ele continua comprometido com as instituições financeiras que são a base do império. Obama, como Bush, não é presidente, é capataz. Capataz do império. Mas isso são outros 500. Serão? Lula teve de admitir Meireles, Dilma está engolindo goela abaixo Joaquim Levy e, de quebra, Cátia Abreu. Para melhorar a redistribuição da renda e reduzir os níveis vergonhosos de pobreza no País, Lula teve de apelar para programas do tipo bolsa família, sem mexer substancialmente nas diferenças de salários. Ok. O salário mínimo aumentou, mas muito pouco. Enfim, Lula e muito menos Dilma não conseguiram livrar-se das rédeas do capital financeiro. Cuba que se livrou vem pagando muito caro e ainda teve de aceitar por muito tempo o cabresto da extinta União Soviética, o capitalismo de Estado apelidado de comunismo. O desabafo de Lula parece tardio se o entendemos como um grito de socorro à velha e aguerrida militância do PT e aos que sobrevivem com miseráveis salários. Mesmo o MST não consegue esconder o mal estar diante da clara opção já feita no primeiro governo Lula para o agronegócio, sobretudo para a implantação do etanol e a produção de soja. E a goela de qualquer sem-terra é igual a de todo mundo, não consegue deixar passar a Cátia Abreu equipada com motosserra. Enfim, é um tiquinho de nada que o PT de 2015 está à esquerda de seu principal adversário, o PSDB. Ao optar pelos conchavos de gabinete e por alianças espúrias (Sarney, Maluf e o diabo a quatro) o partido perdeu os militantes aguerridos e a vontade de ir às ruas pelos que restaram. Quero até estar enganado, mas o que realmente representa o desabafo de Lula é a despedida de alguém que já se considera carta fora do baralho e quer apenas ser lembrado como o presidente que melhor promoveu a distribuição da renda no Brasil. E não ir para a cadeia como se fosse um criminoso. Tarcísio Lage, jornalista, escritor, começou na Última Hora de Belo Horizonte no início dos anos 60. Com o golpe de 1964 teve de deixar a cidade e o curso de Economia na UFMG. Até 1969, quando foi condenado pela Injustiça Militar, trabalhou em várias redações do Rio e São Paulo. Participou da tentativa de renovação da revista O Cruzeiro e da reabertura da Folha de São Paulo, em 1968. Exilado no Chile no final de 1969, trabalhou, em seguida, em três emissoras internacionais: BBC de Londres, Rádio Suiça, em Berna, e Rádio Nederland, em Hilversum, na Holanda, onde vive atualmente. As Tranças do Poder é seu último livro. Direto da Redação é um fórum, editado pelo jornalista e escritor Rui Martins
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