Há três décadas pesquisadores estudam de forma sistemática um fenômeno relacionado a problemas de qualidade nos serviços de saúde e em particular os hospitais. Esse fenômeno – os eventos adversos (EAs) – atinge, nos países onde foi investigado, patamares alarmantes. Estima-se que cerca de 100 mil pessoas morram em hospitais a cada ano, vítimas de EAs nos Estados Unidos da América (EUA). Essa alta incidência resulta em uma taxa de mortalidade, nos EUA, maior do que as atribuídas aos pacientes com AIDS, câncer de mama ou atropelamentos. A ocorrência crescente de casos documentados de EAs no cuidado à saúde tem provocado um debate sobre a segurança do paciente em âmbito internacional. Estudos sobre agravos causados pelo cuidado à saúde já vêm sendo divulgados há muitos anos. Resultados semelhantes aos dos EUA foram encontrados no Canadá, Dinamarca, França, Inglaterra, Nova Zelândia, Austrália, Espanha, Suécia e Holanda.
A ocorrência de EAs representa também um grave prejuízo financeiro para o sistema de saúde. No Reino Unido e na Irlanda do Norte, o prolongamento do tempo de permanência no hospital devido aos EAs custa cerca de dois bilhões de libras ao ano e o gasto do Sistema Nacional de Saúde com questões litigiosas associadas a EAs é de 400 milhões de libras ao ano. Nos EUA, os custos anuais provocados por EAs estão estimados entre US$ 17 e US$ 29 bilhões anuais.
Um EA pode ser uma infecção hospitalar, uma complicação na cirurgia, uma hemorragia digestiva provocada pelo uso de um medicamento, ou uma fratura provocada pela queda do leito. O EA pode ser um problema dermatológico simples, ou uma lesão grave que provoque até a morte. O EA só acontece em conseqüência do cuidado prestado.
Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz realizaram uma pesquisa com prontuários de pacientes internados em hospitais no Brasil e verificaram, tal como nos hospitais dos outros países, que o número de EAs que poderiam ter sido evitados foi de 5%. Isto significa que 5 pacientes tiveram EAs que poderiam ser evitados entre 100 pacientes que foram internados. Quando extrapolamos esses números, verificamos que, tomando como base pacientes internados no SUS, das 11.109.695 internações no ano de 2008 é provável que 563.020 pacientes tenham tido algum EA.
Estes números mostram a importância do tema, que não é novo, mas ganhou mais destaque porque as informações sobre a saúde melhoraram e o cuidado à saúde ficou mais complexo. O reconhecimento de que a exposição ao sistema de saúde pode gerar danos, e não só proporcionar benefícios é antigo. Em 1955, o professor de medicina de Nova York, David P. Barr descreveu esta situação como sendo o ônus inevitável que se paga pelos avanços tecnológicos da medicina, dando origem às enfermidades denominadas “doenças do progresso médico”.
Frente à magnitude do problema, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou um programa - patient safety (www.who.int/patientsafety/en ) - com o objetivo de estudar metodologias para atuar de forma sistemática para diminuir os riscos à segurança do paciente nos serviços de saúde. Paralelamente a OMS vem estimulando campanhas internacionais, como a Cirurgia Segura. O manual da OMS está disponível www.proqualis.net/cirurgia, mas muito poucos hospitais públicos e privados no nosso país assumiram esta campanha.
Walter Mendes é médico e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz.