É certo que não há provas contra Antonio Palocci, mas o esforço da oposição para preservar o ministro chama a atenção. Banqueiros e rentistas da alta classe média não querem arriscar-se a uma mudança súbita na direção da economia
O esforço da oposição em preservar o ministro Palocci, elogiando a sua defesa de domingo, toca no que podemos chamar de o coração da matéria: é a vitória temporária da direita do PT, identificada como a ala pragmática.
Quando as denúncias de corrupção atingiam José Dirceu, Genoino e alguns outros, vociferavam os porta-vozes do PSDB e do PFL, pedindo sangue. Os encômios a Palocci partem de todos os lados, principalmente de tucanos e de alguns formadores de opinião, que com eles se identificam.
É certo que não há provas contra o ministro, mas a reação dos oposicionistas tem outra explicação. Como os leitores devem ter percebido, as investigações começam a perder o fôlego, ao caminharem no passado recente.
Notas fiscais de Valério, referentes a 1997 e 1998, são queimadas. Outras provas, relativas ao suprimento de recursos a Marcos Valério desaparecem do conjunto de documentos entregues à CPI. PSDB e PFL não se inquietaram com esses papéis, e com suas razões: os incriminados eram seus correligionários e os banqueiros.
Há uma desculpa política para os amplos aplausos a Palocci: trata-se de tranqüilizar o mercado. Isso faz lembrar a famosa resposta de Geisel ao general Sílvio Frota, quando o ministro, ao receber a ordem de demitir o general Ednardo Melo do 2º Exército, ponderou que antes deveriam ouvir o sistema.
Geisel cortou, curto e seco: "o único sistema que conheço é o sistema métrico decimal, que não fala". Não existia um sistema; havia chefes militares que disputavam o poder e defendiam posições, umas mais radicais, outras menos.
Não existe mercado; existem mercadores. Nas feiras antigas, sentados sobre os bancos debaixo dos quais mantinham suas arcas com dinheiro e papéis, os banqueiros controlavam, mediante o uso do crédito e do câmbio, a oferta e a procura. Hoje, as coisas não mudaram muito.
Os banqueiros, que a cada semestre ganham sempre mais, não querem arriscar-se a mudança súbita na direção da economia. Nem a querem os rentistas da alta classe média, que vivem dos juros altos.
A uns e outros pouco importa o que tenha feito ou não tenha feito o prefeito de Ribeirão Preto: interessa o que faz o ministro da Fazenda. Para eles tampouco interessa o que faz o seu colega de ofício, Henrique Meirelles, no Banco Central; o que lhes interessa é a elevada taxa de juros e as mãos livres para fixar as tarifas bancárias.
E como são os banqueiros que, generosamente, abrem suas bolsas a fim de financiar as eleições, PFL e PSDB agarraram-se às explicações de Palocci como a uma tábua de salvamento. Afinal, o que desejavam, obtiveram. Graças ao Sr. Delúbio Soares e à assessoria técnica do experiente servidor dos tucanos, Marcos Valério, arrasaram o que sobrara do projeto humanista do Partido dos Trabalhadores.
Por isso lhes convém parar as investigações onde elas se encontram. Devem estar atentos ao velho provérbio: macaco que mexe muito, ou torce o rabo, ou leva chumbo. E há chumbo grosso que os pode atingir.
Sob o pretexto de que é preciso salvar a economia, os poderes de fato começam a arbitrar a crise, e a seu favor. Não só se encontram preocupados em assegurar a conjuntura, que lhes é benéfica, como se assustam com a possibilidade de que a devassa atinja, em cheio, o governo passado.
Se isso ocorrer, os cidadãos irão descobrir o grande conluio para a desnacionalização da economia brasileira e o desmantelamento do Estado, como medida precursora para o definitivo controle do país pelos delegados, diretos ou indiretos, do governo de Washington, hoje constituído de delegados de Wall Street e petroleiros do Texas.
Só a mobilização da cidadania conseguirá impor o aprofundamento das investigações parlamen