Por Maria Lúcia Dahl - Hoje foi diferente. Resolvi encarar o passado diante do presente disposto à minha frente sob a forma de alunos que vão trabalhar comigo numa peça falando de adolescência.
Maria Lícia Dahl se lembra da infância, do assalto e da consciência de uma sociedade injusta
Já tinha voltado lá numa festa de comemoração. (A de 70 anos do Colégio Andrews, acho eu). Uma festa animadíssima num pátio enorme. O da minha ex-casa. Da casa onde nasci e morei até os dez anos de idade. Tinha, porém, me poupado entrar dentro do que sobrou da casa propriamente dita. No corpo da casa, ou seja, no meu próprio corpo, no meu ventre, no âmago da minha infância.
Hoje foi diferente. Resolvi encarar o passado diante do presente disposto à minha frente sob a forma de alunos que vão trabalhar comigo numa peça falando de adolescência.
O diretor do colégio me pergunta: “Lembra dessa escada de madeira que provavelmente levava aos quartos na sua época, tranformados agora em salas de aula?”
A escada escura de madeira, onde eu passava correndo com medo dos fantasmas que se escondiam no seu vão. “Os macaquinhos do meu sótão”. Os meus fantasmas. Os mesmos que me acompanham até hoje, saídos assustadoramente daquele ventre oco que materializa o meu inconsciente.
Quantas análises já me rendeu aquele simples vão de escada iluminado com a tênue luz dourada da mesma luminária de outrora, única realidade trazida do fundo de um passado remoto como os tesouros do Titanic achados no fundo do mar.
Subia correndo os seus degraus escuros, cobertos por uma passadeira vermelha e driblava o medo que o vão me inspirava inventando uma amiga imaginária que me fazia “voar” até o quarto onde vovó me esperava pra ler Monteiro Lobato. “Conta, vovó.”
O medo era irreal, subjetivo, surgia da escuridão difusa espalhada pela insegurança da minha infância sob a forma de ameaça. Hoje a ameaça concretizouse. Materializou-se no narcotráfico.
Não saíram do vão da escada, nem do inconsciente. Entraram pela porta da frente, pela porta principal. A porta do colégio, a porta da minha ex-casa, pedindo dois mil reais para não fechá-la. Mas a casa se fechou por um dia, simbolizando uma espécie de luto. Luto por termos deixado os fantasmas da minha infância terem se materializado. Luto por não se diluírem mais com a luz do dia como os vampiros que se reduziam a cinza e fumaça. Luto por não podermos acabar com eles com algumas sessões de análise. Luto por termos consentido que se tornassem reais. Luto pela pobreza e a miséria. Luto por termos criado o caos. Luto pela nossa omissão. Luto por acharmos que a favela era um lindo “presepinho” distante. 700 presepinhos. Prestes a explodir. A explodir com a gente.
“Perdeu!” dizem os traficantes apossando-se das casas dos seus vizinhos. Perdemos todos nesse jogo sem ganhadores. Que saudades da minha casa e dos seus glamourosos fantasmas desarmados, apenas levemente entrevistos de dentro do vão da escada. O Revólver de Brinquedo
Rua Visconde Silva 161. Minha casa, antes de virar o Colégio Andrews, em Botafogo. De um lado os vizinhos da família Santos Dumont, do outro, uma casa de cômodos com seus personagens de O Cortiço. Famílias decentes e muito pobres moravam no casarão caindo aos pedaços com suas vielas íngremes que terminavam no morro. No nosso jardim um imenso gramado dava água na boca aos meninos do lado, que olhavam cobiçosos por entre o muro de ficus cuidado por Seu Manoel, o jardineiro português. Um dia não resistiram e pularam pra dentro da casa pra jogar futebol. Tinham sete, oito anos de idade, como eu. Seu Manoel pegou a tesoura de cortar grama e avançou contra eles, que pularam correndo o muro de volta enquanto o jardineiro ameaçava cortar os seus pés. Um sentimento desagradavel e difuso tomou conta do meu peito.
À noite, do quarto contíguo ao meu e da minha irmã, vovó nos lia a tradução de Olavo Bilac do livro alemão João Felpudo onde se via a figura de um “negrinho”de guarda-sol. “Muito limpo e direitinho passa na rua um negrinho com seu guarda-sol aberto. Gaspar, Luizinho e Roberto que vivem constantemente caçoando de toda gente mal vêem o pobre passar começam logo a vaiar: olha o boneco de pixe, macaquinho de azeviche, bobo alegre! Sai, tição!”
Fixava a figura do livro e pensava nos negrinhos que brincavam na rua olhando pro alto e apostando quem veria primeiro um balão. “Olha lá um balão, primeiro a piar!” Os mesmos que vendiam jornal ao papai sacudindo as moedas na mão: “Jornal, jornal, jogo niquenal” Também os mesmos que reprimiam o colega sem jornal que pedia: “Me dá um trocado?” “Ih, camarada, você é pidão!” Gostava daqueles negrinhos muito limpos e direitinhos que brincavam defronte a nossa casa correndo atrás da bola que pulava entre os paralelepípedos fugindo dos seus pés descalços. “Me dá um trocado?” Pediam eles com inveja do pão com goiabada que eu comia esperando o ônibus que me levaria ao Colégio Sion. “Sai, moleque!” Enxotava-os babá, puxando-me pelo braço.
Tête à tête com eles, os negrinhos, só no Natal dos Moleques que vovó fazia pra eles, os meninos do cortiço, macaquinhos de azeviche, que comiam bolo com guaraná e se retiravam, contentes, de volta a sua pobreza, revólver de brinquedo na mão.
Ontem fui a Santa Teresa almoçar com minha filha e meu neto, de carro. E quando apreciávamos a inacreditável paisagem e a aparente tranqüilidade dos moradores sentados nas calçadas conversando defronte às suas casas de portas abertas, em plena tarde, dois negros fortes nos apontaram suas armas reluzentes mandando parar o carro. Um entrou do lado da minha filha, que estava dirigindo, outro do meu. “Passa o dinheiro, dona.” “Ih, camarada, você é pidão!” Lembro dos garotinhos da minha rua enquanto procuro a carteira na bolsa, revólver apontado na minha direção. “Só tenho isso, moço.” Respondo, procurando o seu olhar que se desvia do meu. “Me dá um trocado?” Pediam os meninos da rua. O troco. Dado ao meu sanduiche de goiabada, ao frustrado jogo de futebol no gramado, a tesoura de jardineiro de Seu Manoel. O assaltante pega a minha carteira e revira-a analisando os meus cartões. Peço que me deixe os documentos, que ele os devolve. “Moço, por favor”, continuo educadamente. “Cuidado com o bebê que está no banco detrás...” Meu neto grita de sua cadeirinha: “Eu não sou bebê! O Antônio é grandão!” O assaltante se afasta dizendo: “Vai tranqüila, tia.” E retira-se pra sua pobreza levando consigo seu revólver de verdade enquanto consigo finalmente definir o sentimento difuso que me causava malestar quando criança.
Era o de injustiça.
Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais - Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa - 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come - Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais - Dancing Days - Anos Dourados - Gabriela e recentemente em - Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas - O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme - Vendo ou Alugo - vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.
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