Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

O Chef Santana que fritou Marina

Por Moisés Rabinovici - Talvez Marina não devesse ser arrasada, perseguida insistentemente por Dilma, porque nem chegaria, na verdade, ao segundo turno. Quem sabe se, poupada, não se tornaria uma aliada, ou ao menos não se aproximaria de Aécio Neves, nem seria uma inimiga declarada, ofendida, cortados todos os canais de diálogo com o Palácio do Planalto?

Sexta, 10 de Outubro de 2014 às 14:00, por: CdB
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Não tivesse fritado sem dó Marina, João Santana teria preservado a acriana como aliada de Dilma, comenta o jornalista Moisés Rabinovici
A recomendação do chef João Santana, ao assumir a cozinha lá de casa, nos anos 90 do século passado: "Não podemos machucar os ingredientes". Cortou uma, duas, quatro cebolas com tanta perícia que nem ela, nem nós, choramos. Picou tomates carinhosamente. Tratou os temperos com devoção. Levou o peixe ao fogo com delicadeza e até certa culpa pelo calor que o transformaria, meia hora depois, numa moqueca baiana. No final, um prato agradecido por tanto cuidado e respeito — ao que retribuiu, delicioso. Brusco salto para 2014. Para papar a sétima eleição da série, interrompida com a derrota de seu candidato no Panamá, em maio, o marqueteiro João Santana convenceu a presidente Dilma a torturar e espancar os ingredientes que ameaçavam o primeiro turno de seu refogado predileto — a reeleição. E tome, Marina! Temperou-a com o terrorismo da fome ante pratos vazios, desemprego, banditismo de meninos de rua desamparados e fantasmas renascendo de um passado assombrado, numa sequência de filmes de horror publicitário nunca antes vista neste pais. A rival foi desidratada, desconstruída e afogada em banho-maria. E Aécio, tome também, salpicado na blogosfera com cheiro de pó, fritado em fogo lento à manteiga Aviação, importada via aeroporto aberto perto de sua fazenda de Cláudio, em Minas, e servido com o consagrado molho da "privataria tucana". Dilma? Irretocável, uai! Gerentona, mãe do PAC, incorruptível, a Senhora Muda Mais Brasil, poste aceso pelo companheiro ex-presidente, Dama de Ferro na administração da Petrobras, benfeitora de Cuba, protetora dos degoladores do califado sírio-iraquiano, chefa de um grupo político acima de qualquer suspeita e já considerada reeleita até 2018 por clamor popular. Entre chef e marqueteiro, entre incapaz de torturar uma berinjela, mas comandante de um pelotão de fuzilamento de reputações, João Santana fez outras escalas na vida. Foi bicho-grilo empenhadíssimo, turista em viagens de ácido e cogumelos alucinógenos ao interior de si mesmo. Foi músico no tropicalismo dos anos 70, amigo de Caetano e Gil. Chamavam-no Patinhase ele tinha o cabelo black power. Ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, ele se definiu como "um dos últimos socialistas românticos e um dos primeiro ssocialistas cibernéticos – ao mesmo tempo utópico e descrente, ao mesmo tempo sério e debochado". Contou também que "aprendeu hipnotismo em dez lições" e praticou "até com levitação"; e que "hoje é adepto da quiromancia". Seu pai espiritual "é ainda" o suíço-baiano Anton Walter Smeták (1913-84), violoncelista, compositor, escritor e escultor – o guru dos tropicalistas: "Ensinou-me a virar os olhos para dentro da cabeça e o ouvido para dentro do silêncio da alma" (Época, versão Kindle, 2014). Quando nos conhecemos, morávamos perto um do outro – ele em Washington, DC, e eu em Bethesda, Maryland, ligados por metrô. Patinhas passava um ano sabático nos Estados Unidos, com a quinta ou sexta das mulheres, que agora totalizam oito – que, garante, não serão mais. Era então um jornalista famoso no Brasil. Tinha sido dele o golpe mortal desferido contra o presidente Fernando Collor. Derrubou-o ao descobrir o motorista Francisco Eriberto Freire França, testemunha-chave no processo de impeachment: ele entregava dinheiro em pacotes do tesoureiro PC Farias em domicílios brasilienses e ainda se encarregava de providenciar bodes, galinhas "e o escambau" para rituais de magia negra na Casa da Dinda. Aquele famoso Fiat Elba da primeira-dama Rosana foi compra dele. De diretor da sucursal de Brasília da revista IstoÉ, Patinhas promoveu-se a marqueteiro político, associando-se ao "mago" Duda Mendonça, que foi quem elegeu Lula pela primeira vez. De repórter investigativo das falcatruas de todo-poderosos passou à defesa de todo-poderosos contra a imprensa. Uma reviravolta e tanto. A mesma do carinho com hortaliças ao bombardeio impiedoso da verde Marina. De bicho-grilo a sombra da presidenta do Brasil. Marketing, para ele, é a adaptação de um produto ao gosto do consumidor, enquanto a publicidade cuida de vender. Tucano de nascimento, pois que nasceu em Tucano, a cerca de 200 quilômetros de Salvador, João Santana, 61, já trabalhou para Hugo Chávez, da Venezuela, e José Eduardo dos Santos, de Angola. Ele "perdeu a sensibilidade para as questões fundamentais do Estado do Direito", criticou-o o jornalista Alberto Dines, num artigo em que lamentou a perda de ótimos repórteres investigativos para o marketing. O poder de Patinhas é imenso. Como se fosse massinha, molda Dilma segundo sua percepção das pesquisas de opinião pública diárias que manda fazer. Escreve os discursos mais importantes. Criou as marcas PAC; Minha Casa Minha Vida; o Brasil de todos; o País sem fome... Dá o rumo, determina a agenda e escolhe o inimigo. Aí mora o perigo. Se se baseia em sondagens, que se revelaram erradas para o primeiro turno, ele pode interpretar e escolher errado. Talvez Marina não devesse ser arrasada, perseguida insistentemente por Dilma, porque nem chegaria, na verdade, ao segundo turno. Quem sabe se, poupada, não se tornaria uma aliada, ou ao menos não se aproximaria de Aécio Neves, nem seria uma inimiga declarada, ofendida, cortados todos os canais de diálogo com o Palácio do Planalto? O chef Santana machucou os ingredientes que entram no cardápio da reeleição. Pôs muito da pimenta ardida baiana num leve consomê. As pesquisas refletem opiniões ou as opiniões refletem as pesquisas? Nesse universo de incertezas, o pior engano é ter certezas. Moisés Rabinovici, jornalista, diretor do Diário do Comércio de São Paulo, foi correspondente do Estadão em Israel-Oriente Médio e Washington, foi correspondente da Época em Paris.
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