Em dado momento do final da tarde do dia 4 de maio, na praça principal da cidade de Brejo, os trabalhadores rurais, de todo o Baixo Parnaíba maranhense, que haviam percorrido mais de vinte quilômetros, entre o povoado de São João dos Pilões e a sede do município, podiam ser reparados como a lagoa pela qual eles acabaram de passar: um único corpo, totalmente centrado em si, aparentando imobilidade, mas que se altera ou que se movimenta ao menor contato. Ao mesmo tempo, inspirador de receio e de curiosidade. Receio pelos transtornos que pode causar; curiosidade pelo que o move.
Aonde já se viu? Essa gente toda, eles vindos sabe Deus de onde. Coitados dos "gaúchos", só depois que eles vieram para cá com a soja é que arranjamos trabalho. Apanhador de graveto é o que mais dá. Coisa boa: foram os "gaúchos" que puseram fim nessa mania de criar animal solto por aí que provocava acidentes no meio da estrada. Os funcionários das fazendas de soja têm ordem para atirar nos animais que forem encontrados pastando nas propriedades. Os "gaúchos" estão no seu direito e não são obrigados a aceitarem a entrada de animais em suas terras. De qualquer forma, esse costume ficou fora de regra depois da chegada dos "gaúchos". Por essas e por outras, tem quem pense duas vezes antes de criar uma espécie de animal na região do Baixo Parnaíba maranhense.
Durante os mais de vinte quilômetros que a marcha andou de São João dos Pilões até Brejo, levando um pouco mais de sete horas, uma jornada de gargantas secas e recipientes vazios de água, pois o sol do Cerrado chupava, através da respiração, toda a água dos seus corpos, quem mora nos povoados de beira de estrada ou quem estava só de passagem, em ônibus, em seu carro, em seu caminhão carregando carvão vegetal ou soja, olhava duvidando para aquele mundaréu de gente e logo queria saber o porquê da caminhada, o do por que desse povo todo está reunido e andando debaixo daquele sol inclemente. Por todo o rumo, os interpelantes curiavam as reclamações e as exigências daquele povo. Que interior vocês moram? Quantas horas daqui? Que vocês pretendem? A marcha apertava o passo que nem rio descendo a chapada. Quem quisesse se inteirar dos porquês haveria de ter paciência até chegar à cidade de Brejo, onde se discursariam e leriam uma carta para toda a cidade, na escadaria da igreja.
Na verdade, a marcha andava sedenta de justiça. Como fora escrito, os trabalhadores rurais pareciam um só corpo em que todos os sentidos ligaram-se em uma estação de rádio, na qual iam ser manifestadas as suas agruras e, óbvio, as suas querenças para uma vida melhor e mais sossegada. Eles estavam sossegados e só se agitavam quando escutavam alguma denúncia muito séria o que lhes intimava a dar uma resposta, nem que fosse uma salva de palmas para o discursador. Aconteceu assim, na hora em que o sr. Raimundo Monteiro, superintendente regional do Incra, se comprometeu a transformar o Saco das Almas, ameaçado pela soja, de um projeto de assentamento em um projeto quilombola. Seria só um arroubo de momento? Nenhum prazo foi fixado - talvez antevendo que escorraçar os grileiros para longe das terras públicas seja mais difícil do que discursar. Os quilombolas da Vila dos Criulis e da Boca da Mata, na data Saco das Almas, com certeza, anseiam por mais ações em vez de discursos no seu embate. Parte dos 923 hectares da propriedade foi ocupada irregularmente para produção de palmito e pastagem por um japonês chamado Fabio Yashoda. Nesse conflito, como em outros no Baixo Parnaíba, os cursos de água foram privatizados e as comunidades impedidas de se abastecerem. Cercaram e proibiram a entrada nos riachos Piaba, Faveira e Santa Cruz, tributários do rio Parnaíba. Os fazendeiros vêem apenas que os riachos estão dentro de suas propriedades e que por isso cometem qualquer ato legal perante a lei, sem medir as conseqüências. Quantas pessoas visitavam esses riachos e deles usufruíam para o banho e para sua