Depois de muito tempo, e com explicações esfarrapadas, meu amigo Saul Leblon me escreve novamente:
"Meu caro Flávio
Desculpe a tanta demora. Como sabes, estou estacionado em São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul, vivendo nestes gelados pagos, um tórrido caso de amor. Sei que isso não é desculpa, mas na prática isso tem me impedido de manter em dia nossa correspondência.
Resolvi, entretanto, tomar da pena, ou melhor, do teclado, para te escrever estas mal traçadas a propósito do rumoroso caso do capitão Lamarca, agora que a comissão dos desaparecidos e outras vítimas da ditadura militar, do Ministério da Justiça, houve por bem promovê-lo postumamente a coronel, acordando à família uma pensão equivalente ao soldo de general, fora outras indenizações.
Fiquei estarrecido, meu claro Flávio, com a celeuma levantada, e a natureza dos argumentos contrários a tal decisão. Houve manifestações de militares da ativa e da reserva, de civis, até editoriais em contrário. Até mesmo a versão do suicídio de sua companheira ao final da vida, Iara Iavelberg, chegou a ser exumada do arquivo morto da história, que é onde deveria ficar depositada para sempre.
Rememoremos primeiro, Flávio, se a memória não te falha, o caso da Iara. Tudo é contradição em sua morte. Relatórios oficiais tergiversam até sobre a data, um dá como sendo 6 de agosto, outro como sendo 20 de agosto. De ambas as datas, a de 20 de agosto é a certa, parece, isso no ano de 1971, um pouco antes do capitão ser morto a tiros no sertão da Bahia, cerca de um mês depois. Há pelo menos três versões sobre sua morte. A oficial diz que foi suicídio. Cercada pela polícia num apartamento em Salvador, depois da prisão de seus correligionários, Iara teria dado um tiro no peito para não ser presa. Há uma outra versão, baseada no depoimento do médico Lamartine Lima, que diz ter ouvido do militar Rubem Otero, que participou do cerco, a confissão de que a matara. E há a terceira versão, de presos no DOI-CODI de Salvador, segundo a qual eles teriam escutado gritos de uma mulher sendo torturada nesse dia 20, e teriam reconhecido a voz como sendo a de Iara.
Nesse caso, ela teria sido levada para aquele porão da ditadura ainda com vida e teria sido assassinada lá. Seu cadáver foi entregue à família, em São Paulo, em caixão lacrado, e enterrado no Cemitério Israelita, nas cercanias da cidade, na ala reservada aos suicidas. Em todo caso, depois de longa batalha judicial com a direção do cemitério, a família conseguiu ao final da década de 90 a exumação do cadáver. O exame pericial feito determinou que a versão do suicídio era "improvável".
Depois disso tudo, Flávio, levantar na imprensa sem mais aquela a versão do suicídio é escárnio e derrisão, para dizer o mínimo. Vamos, por um momento, aceitar a versão oficial. Pergunto: é suicida o judeu que no campo de concentração se jogava na cerca eletrificada para morrer? Existe uma figura jurídica, meu caro Aguiar, e se não existe deveria existir, que é a que define a "indução ao suicídio". Se atirou contra si mesma, o que é improvável, conforme o laudo, Iara o fez para evitar o inevitável: a bestial tortura a que seria submetida, e o provável assassinato ao fim e ao cabo, porque ela e seu companheiro eram dos "marcados para morrer". Quando o esquadrão de caça localizou Lamarca e Zequinha, seu companheiro de últimas horas, não houve gritos nem advertências: foram logo atirando para matar.
Onde estamos? Parece que a ditadura, para alguns, seja por convicção, seja por comodismo, não passou. Bom, que não passou de todo, não passou: documentos e segredos continuam fechados a sete chaves, nem mesmo o governo popular ousa demandar sua cabal abertura.
Voltemos ao capitão Lamarca. Contra sua promoção póstuma levantaram-se três tipos de argumentos. Vamos a eles, meu caro amigo, para ver sua procedência, e pertinência.
O primeiro é de que Lamarca era um desertor, um traidor, porta
O caso Lamarca
Por Flávio Aguiar: Fiquei estarrecido com a celeuma levantada e a natureza dos argumentos contrários a tal decisão. Parece que a ditadura, para alguns, por convicção ou comodismo, não passou. (Leia Mais)
Domingo, 17 de Junho de 2007 às 12:45, por: CdB