Por Urariano Mota - Depois da mordida que o jogador Luis Suárez deu no italiano, surgiram explicações psicológicas, misericordiosas, para o seu ato. Como esta, do mestre em Psicologia do Esporte da Universitat Autònoma de Barcelona, psicólogo Maurício Pinto Marques.
Ao contrário de Suárez, o mordedor, Garrincha preferia o humor, desmontando os seus marcadores em dribles infernais.
Depois da mordida que o jogador Luis Suárez deu no italiano, surgiram explicações psicológicas, misericordiosas, para o seu ato. Como esta, do mestre em Psicologia do Esporte da Universitat Autònoma de Barcelona, psicólogo Maurício Pinto Marques.
Para ele, que acompanha, como fã de futebol, a carreira de Suárez e tem amigos no staff do Liverpool, e conhecedor da história do atleta, essas atitudes intempestivas e polêmicas do jogador têm a ver com a sua infância miserável. Suárez, portanto, cresceu unindo o seu talento com a bola a uma chance de sobreviver.
“O futebol, para ele, sempre foi uma questão de sobrevivência. Foi o meio que arranjou de salvar a vida dele. É inconsciente. Num momento de grande pressão, de luta, ele acaba repetindo, há o gatilho que estoura”
Mas isso não é verdade. As pessoas não se vingam da miséria, da pobreza na infância, virando delinquentes. Pelo contrário, tenho visto com mais frequência o crescimento da generosidade, pela compreensão da dor de quem nada tem. Lembro de Máximo Górki, no livro Minhas Universidades, como ele chamava ironicamente sua experiência de vida nas ruas. E para não ir tão longe, lembro outros casos, mais próximos.
Lembro de Ubirajara Gomes da Silva, Bira, a quem entrevistei para a revista Carta Capital.
Bira era um morador de rua, quase um mendigo, que passou no concurso do Banco do Brasil. Seria o mesmo que acreditar em contos da carochinha?. No entanto, Ubirajara Gomes da Silva existe, é de carne e osso, mais ossos que carne, pelo menos até passar no concurso. Com 1,74 m de altura, chegou a pesar algo em torno de 50 quilos... Na ocasião, ele era um jovem de 27 anos, mulato, com um olhar zen, uma postura zen, uma fala zen, difícil às vezes de se ouvir. Tinha o segundo grau, que conseguira em exames do supletivo.
Nos 12 anos em que morou nas ruas, dos 15 aos 27 de idade, conta que certa vez ficou 30 dias sem alimento.
“ Como é que alguém consegue passar 30 dias sem comer? Eu lhe perguntei.
Resposta dele:
– Passando… Eu passei 30 dias sem comer, mas tomando água, comendo muito pouco, 30 dias sem me alimentar. Eu vivia dormindo, era muito sonolento, minha pressão caía, e o pessoal falava, “ele só quer dormir. É a vida que ele quer”. O pessoal me chamava de preguiçoso, de doido…
– E você se acostumou a passar fome? Voltei a perguntar.
– Me acostumei assim, não é? Não é que eu me acostumei. Me acostumei porque não tinha. Mas não me acostumei de achar aquilo uma coisa legal… me acostumei por causa de não ter mesmo, de não ter de onde ganhar” ele me contou.
Lembro de Lula, o ex-presidente, o presidente mais popular do Brasil, tanto no meio do povo quanto em todo o mundo. Lula foi um dos brasileiros a sair de pau de arara, fugindo da seca e da fome, rumo a São Paulo. Onde não encontrou vida fácil. .
Por exemplo, quando o Lula menino pegou da boca de um colega o chiclete mascado, a escola. Por exemplo, quando bebeu da água que até os animais rejeitam. Ou a intensidade da dor de ver a mulher falecer de parto, como tantos pobres do Brasil já viram, e jamais tiveram a sua dor expressa.
Para ficar no futebol, lembro de Garrincha, por exemplo. O operário de fábrica, o gênio que encantou o mundo, que jogava descalço e sem camisa com os antigos companheiros, na pelada da várzea, mesmo depois da glória nas copas do mundo. Nele, o craque eterno não o transformou em carrasco dos seus iguais. Aliás, Garrincha preferia o humor, desmontando os seus marcadores em dribles infernais.
Acontece que depois da mordida de Suárez, veio Óscar Tabárez, o treinador da seleção uruguaia, dizer que se enervava em sua entrevista coletiva ao ter que falar sobre o assunto:
“Ele é uma grande pessoa e é muito importante para o grupo. Ele é sempre atacado, como vocês estão fazendo nesta coletiva. Temos que defendê-lo também, porque este é um campeonato de futebol, e não de moralismo barato”.
Moralismo! Aqui, mais uma vez, deseja-se confundir moral com moralismo. Para pegar um clássico, diremos que moral é terreno de Molière. Moralismo é terreno do personagem avarento. Quem fala que Suárez é desleal, acanalhado, racista, sem regras no jogo, faz um julgamento moral.
Dizer que tal condenação é moralista é o mesmo que dizer que todos devem agir como Suárez, pegando bola com a mão, insultando colegas negros com agressões de macaco, dando mordidas e fingindo cair ferido em campo. Se isso é comum, que se transforme em norma. Todos caiam na selva. Moralismo está no terreno mais próximo da hipocrisia, no terreno do imoral, em resumo. Moralista é quem condena as prostitutas e as frequenta na calada da noite. Moralista é quem persegue homossexuais, sendo ele próprio um gay, como o lendário chefe do FBI, Edgar Hoover. Isso é moralismo.
Moral é a condenação do grande jogador e delinquente Luiz Suarez. A FIFA o cortou da Copa do Mudo. Do modo mais merecido. Viva.
Urariano Mota, escritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, grávida, depois de traída e denunciada por seu próprio amante o Cabo Anselmo. Escreveu também O filho renegado de Deus e seu livro mais recente é o Dicionário Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Corações Futuristas, um romance na época do ditador Garrastazu Médici. Na juventude publicou artigos, contos e crônicas nos jornais Movimento e Opinião.
Direto da Redação é editado pelo jornalista Rui Martins.
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