Aparentemente o "Cansei" não empolgou os analistas políticos dos grandes jornais. Talvez por faltar nome de peso que dê lustro político ou acadêmico ao movimento, talvez pela percepção de seu fôlego curto, a imprensa não embarcou de mala e cuia no "agito" promovido por João Dória Jr. Estava muito claro seu caráter direitista e elitista. Melhor continuar amplificando a insatisfação de parcela da classe média de forma sofisticada. Continuar editando a sensação de caos à espera de algo mais orgânico.
Não basta, portanto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lembrar que "em uma sociedade, há manifestações de todo tipo. Tem `Cansei´, tem abaixo-não-sei-quem. O PT era mestre em fazer abaixo FHC". É verdade. Mas o que o "príncipe das editorias de política" oculta é a diferença de apoio logístico. Contra ele, não se articularam associações como a Abert, Febraban e Fiesp. Pelo contrário, salvo falha imperdoável de memória, esse foi seu núcleo de apoio: mídia, capital financeiro e empresariado paulista.
Menor serventia tem a afirmação acaciana do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), de que o movimento não pode ser considerado golpista porque vivemos numa democracia. Isso soa pueril para um poder midiático que deixou de se configurar como mediador para se apresentar como incorporação acabada da opinião pública. O único partido de direita com projeto definido e estratégia de longo prazo. O que mais reúne, sob o surrado "discurso da competência", os melhores "especialistas" em cidadania e interesse público. A ele cabe estabelecer o metro do "cansaço".
Os "cansados" devem estar exaustos. Não deve ser fácil para os daslupianos desvairados dos Jardins e os inocentes do Leblon ouvir o alarido da mobilidade social patrocinada pelo governo Lula. Sem dúvida ,é insuportável ver um "outro de classe" interromper oito anos de pilhagem neoliberal e colocar o país em rota de crescimento sustentável, com o emprego formal batendo recordes sucessivos. Some-se a isso um inegável processo redistributivo e o que temos? Nada que se encaixe nos arrazoados de Miriam Leitão ou Carlos Alberto Sardenberg.
Não falemos em facciosimo ou ódio de classe, pois isso seria uma indelicadeza. O que move o "Cansei" é, de fato, fadiga. Afinal, foi em uma sociedade que concebeu cidadania como privilégio de classe que seus integrantes desenvolveram um singular "senso ético". O que escandaliza tão respeitáveis senhores e senhoras da paulicéia desvairada é perceber que a choldra já não cabe mais em velhas relações de hierarquia, mando e obediência. Agora decidiram ser sujeitos. Vê se pode? Contra essa "anomia" se batem Dora Kramer, Clóvis Rossi, Merval Pereira e outros valorosos quadros do Partido Mídia.
Quando Luiz Flávio Borges d´Urso, presidente da OAB-SP, diz que os que criticam o "Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros" são movidos por má-fé ou desinformação, está coberto de razão. Há muito se perdeu a fé em uma estrutura jurídica que, não definindo direitos, garante privilégios. O senso comum já desmascarou o sistema legal de outorgas ao repetir incessantemente que "a justiça só existe para os ricos". Pena que seu colega da seção carioca da Ordem, o advogado Wadih Damous, tenha sido categórico: "O `Cansei´ tem fundo golpista". Será que nem o bom e velho corporativismo funciona mais, dr.Luiz Flávio? Pior,o Conselho Federal da OAB também decidiu não apoiar o movimento. Assim, fica difícil "cansar" nas primeiras páginas.
Se há ineficiência de gestão em algumas poucas áreas – e o setor aéreo é uma delas –, o que incomoda a parcela protofascista da classe média é a popularização do acesso ao avião. Os saguões estão cheios de caras novas, gente que não fazia parte dos velhos companheiros de check in. E, quer queiram ou não, certo estava o ministro Mantega quando definiu o atraso de vôos como reflexo do preço do sucesso e da prosperidade da economia brasileira. A relação disso com o acidente do Airbus A320 da TAM