Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

O Brasil não entenderá a Venezuela

Por Emir Sader - Se depender da grande mídia privada, os brasileiros não compreenderão o que acontece na Venezuela. Nossos jornais simplesmente repetem o que as agências internacionais publicam diariamente sobre o governo Chávez, compram as versões dos monopólios privados da mídia venezuelana e ignoram o outro lado dos fatos. (Leia Mais)

Terça, 14 de Dezembro de 2004 às 10:19, por: CdB

Apenas umas dezenas de milhares de brasileiros, no máximo, devem ter visto o filme "A revolução não será televisionada", feito por irlandeses sobre o golpe contra o governo de Hugo Chávez em abril de 2002. O excelente documentário foi projetado dezenas de vezes, mas nos canais com menos audiência - a TV Senado, entre eles.

Tendo ido à Venezuela para fazer uma reportagem sobre a situação interna no país, os irlandeses puderam presenciar o clima no Palácio Miraflores, sede do governo venezuelano; mas depois puderam também testemunhar o golpe, a posse do efêmero governo, o papel da imprensa privada e o incrível desenrolar dos acontecimentos, em que a mobilização popular levou Chávez de novo ao poder. É um desfecho inédito na América Latina, depois de cenas de golpe conhecidas por nós, em 1964 pelos chilenos, em 1973 pelos uruguaios e em 1976 pelos argentinos, em que os golpistas, apoiados pela grande mídia privada, triunfaram. Pela primeira vez a reação popular - apoiada pela baixa oficialidade das forças armadas - derrotou os golpistas.

O documentário tira seu título do fato de que as empresas privadas, que detêm o monopólio da mídia naquele país, noticiaram o golpe mas, a partir do momento em que o povo invadiu o palácio presidencial e recolocou Hugo Chávez no governo, todos os canais suspenderam a sua cobertura, substituída por desenhos animados. Os espectadores venezuelanos não foram informados sobre o desfecho do golpe e sobre o protagonismo popular. A mídia privada, que tem no magnata Gustavo Cisneiros seu principal proprietário, foi o partido político do golpe, que levou ao presidente da federação das indústrias efemeramente ao governo. Revelando o caráter classista e entreguista do golpe, foi imediatamente decretada a dissolução das instituições eleitas pelo povo e se anunciou o processo de privatização da PDVS, a empresa petrolífera.

Um dos casos mais escandalosos de utilização totalitária do monopólio privado da mídia praticamente passou batido da imprensa brasileira. Exceção foram as coberturas feitas pela revista Carta Capital e pela Agência Carta Maior e, no caso da Folha de S.Paulo, os relatos de Clovis Rossi que, tendo estado lá, se deu conta do escândalo.

A cobertura posterior da imprensa brasileira impediu que os leitores e espectadores soubessem o que seguia acontecendo na Venezuela. Por isso foram pegos de surpresa com a vitória inquestionável de Hugo Chávez no plebiscito. Não poderiam saber como um governante desqualificado com os clichês da guerra fria pela imprensa brasileira tinha conseguido derrotar o monopólio privado da mídia e a oposição, apoiado pelo governo Bush e que contava com a solidariedade corporativa de quase toda a mídia latino-americana e de outros lugares do mundo.

Esse exemplo de péssimo jornalismo continua. Uma dentre tantas matérias, a publicada nesta semana pelo jornal Folha de S.Paulo, é um bom exemplo desse jornalismo ditatorial. Assinado por Carolina Vila-Nova e escrito desde a redação da FSP, o texto revela que a jornalista repete simplesmente o que as agências internacionais publicam diariamente sobre a Venezuela. Ela escreve que a lei de regulação dos meios de comunicação - aprovada pelo Congresso venezuelano sob o efeito direto da ação totalitária do monopólio privado da mídia no golpe, assim como na incitação cotidiana à violência, incluído o assassinato de Hugo Chávez - "passou sob críticas generalizadas". Usa-se o sujeito oculto - de que os editorais e as matérias editorializadas usam e abusam - sem dizer "quem" faz as "críticas generalizadas" e por que "generalizadas". Se consulta-se a imprensa diária e todos os canais privados da televisão, pode-se ter essa impressão; mas haveria que dizer que trata-se de uma imprensa totalmente nas mãos dos grandes grupos monopólicos privados.

Se compram as versões dos monopólios privados da mídia como elas são vendidas e, quando se trata de dar - em um espaço sempre visivelmente menor, só para c

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