Por Ana Helena Tavares - A maioria dos comentários sempre feitos a textos em que falo da reistência à ditadura militar me leva a uma séria reflexão. O conservadorismo e a desinformação na sociedade brasileira estão em níveis estratosféricos. Temos hoje uma sociedade que justifica a tortura e o desaparecimento de corpos em nome de uma luta contra o “comunismo” que nunca teve real possibilidade de se instalar no Brasil. Jango comunista? Rubens Paiva comunista? Meu tio e tantos outros presos “por engano”?
Segunda, 22 de Setembro de 2014 às 13:47, por: CdB
A ditadura militar, patrocinada por empresas e pelo capital estrangeiro, ainda é hoje justificada por muitos brasileiros
A maioria dos comentários sempre feitos a textos em que falo da ditadura militar, intalada no Brasil em 1964, me leva a uma séria reflexão. O conservadorismo e a desinformação na sociedade brasileira estão em níveis estratosféricos.
Temos hoje uma sociedade que justifica a tortura e o desaparecimento de corpos em nome de uma luta contra o “comunismo” que nunca teve real possibilidade de se instalar no Brasil. Jango comunista? Rubens Paiva comunista? Meu tio e tantos outros presos “por engano”?
Uma ditadura militar, patrocinada por empresas e pelo capital estrangeiro, que é hoje justificada pelos brasileiros. Não sei de quem é a culpa.
Sei que tenho pena de um país que permite que rasguem sua Constituição e não reconhece os que resistiram. O maior país cristão do mundo não reconhece o sagrado direito de resistência à tirania, defendido por Cristo quando enfrentou o Império Romano, defendido por Santo Agostinho, o dr. da Igreja Católica. Não é surpresa para um país que nem seu racismo reconhece.
Um país que acha justificável que famílias inteiras passem anos sem velar seus mortos, sem saber que estão mortos. Um país que não sabe que até na guerra há a obrigação moral de entregar os corpos dos inimigos. Um país que nega a política, que acha que fazer política é crime.
Um país que fala em “dois lados”, como se os dois lados existissem. Como se um não tivesse sido massacrado e o outro tivesse medo de falar. Até hoje uma parte considerável das Forças Armadas nega o que fez. Muitos são os que insistem em negar as torturas que praticavam com o dinheiro dos impostos do contribuinte, sem que o contribuinte comum soubesse disso. Se queriam salvar o Brasil, por que não assumem que torturaram em nome disso? Bando de covardes aplaudido por uma massa manipulada.
Em vista do que tenho lido em comentários a meros artigos, faço ideia do chumbo grosso que receberei por causa do meu livro, em que mostro com documentos e testemunhos fidedignos, que a ditadura atingiu, torturou e calou sindicalistas, padres, militares legalistas, jornalistas, artistas, advogados, índios, estudantes e pessoas comuns.
Navios transformados em prisões, estádios de futebol transformados em prisões e vocês poderão dizer: “não foi comigo!” Já pararam para pensar em como seria esse país se tantas mentes brilhantes não tivessem sido banidas pelo “crime” de pensar e de se indignar? Ou vocês não pensam? Ou não se indignam com o que afeta a sociedade?
Antes de responderem, visitem a França, “modelo de sociedade”, e perguntem quem foi Apoloniô de Carvalhô. Dirão que foi um herói brasileiro, que lutou contra a ditadura no Brasil e contra os nazistas na França. Dirão que o idolatram e que não entendem como em sua própria terra o povo não o conhece e, ainda por cima, renega sua luta.
Ana Helena Tavares, jornalista, conhecida por seu site de jornalismo político Quem tem medo da democracia?, com artigos publicados no Observatório da Imprensa e na extinta revista eletrônica Médio Paraíba. Foi assessora de imprensa e repórter dos Sindicatos dos Policiais Civis e dos Vigilantes. Universitária, entrevistou numerosas pessoas que resistiram à ditadura e seus relatos (alguns publicados na Carta Capital e Brasil de Fato serão publicados brevemente num livro.Direto da Redaçãoé um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.
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