Rio de Janeiro, 16 de Abril de 2026

O Brasil e a Revolução Boliviana

Por Francisco Carlos Teixeira - Os passos de Evo Morales não parecem isolados e nem oportunistas, mas fazem parte de um conjunto de medidas que apontam para o deslanchar de um profundo processo revolucionário na Bolívia. Além da nacionalização dos recursos naturais, o boliviano anulou - por decreto - todos os contratos de trabalho temporários do país. (Leia Mais)

Terça, 09 de Maio de 2006 às 20:08, por: CdB

O decreto "Heróis do Chaco" com o qual Evo Morales nacionalizou os recursos naturais da Bolívia - subsolo, minas, florestas, recursos hídricos etc. - não pode ser visto de forma isolada e meramente como uma ação oportunista do líder boliviano.

Sem qualquer dúvida, insistimos, as condições políticas internas e a dinâmica do movimento social boliviano acabaram por determinar as condições com que a nacionalização - já desde longo tempo prometida - acabou por se realizar. Mas isso não explica tudo. O passado colonial, dependente e subordinado do país, sob décadas de humilhação, deve ser compreendido.

O que aconteceu

São tais condições que compõem o quadro perturbador de todo o processo. De uma forma um tanto óbvia Evo escolheu o dia 1º de maio - uma festa popular e social que coincidia com o arranque da campanha eleitoral para a Assembléia Nacional Constituinte - para anunciar uma medida esperada e prometida. Neste sentido, a relação direta entre o calendário eleitoral e a nacionalização ficou patenteada. A questão central para o novo governo residia em não perder o controle sobre as alas mais à esquerda do MAS (Movimiento al Socialismo) e podar a autonomia crítica das federaciones, principalmente da poderosa Fejuve (Federación de Juntas Vecinales de El Alto) - o chamado "brazo social" - do movimento indígena na Bolívia.

Para muitos, na Fejuve, o novo presidente não era confiável. Alguns chegaram a comparar, em conversas comigo, Evo com Lula - e isso não era, para eles, exatamente uma comparação positiva. Ao longo dos cem dias de Evo a aprovação de seu governo vivia dias bastante duros e, embora a figura do presidente continuasse a inspirar confiança, a situação do ministério era bem outra. Cerca de 52% da população já desaprovava a nova administração, principalmente o eleitorado de esquerda.

O caso do salário mínimo foi bastante emblemático: durante toda a campanha eleitoral, Evo prometeu dobrar o salário de 43,5 euros mensais. Contudo, após a sua posse, muitos ministros pediram maior paciência - o que é duro... pedir paciência ao povo boliviano - e começaram a falar em um aumento mais "realista". Um dos críticos ao possível aumento de 100% do salário mínimo foi o ministro da fazenda, José Luis Arce. O vice-presidente do país, o sociólogo Álvaro Garcia Linera - uma espécie de ideólogo do governo - justificou a ausência do aumento em nome "...de las dificultades económicas que atraviesa el país". Parecia muito com outros governos bolivianos e latino-americanos.

Foram mantidas duras negociações. Arce insistiu num valor " más realista", talvez 50%, para em fim chegar a um aumento real de 13.6%, ou seja de 5,9 euros! Este era o anúncio festivo que Evo deveria fazer na festa do Primeiro de Maio, o dia do início da campanha eleitoral para a Assembléia Nacional Constituinte.

Ora, o anúncio do decreto "Heróis do Chaco" mudou radicalmente todo o cenário. A popularidade de Morales elevou-se rapidamente. A esquerda radical no interior do MAS foi emparedada e a Fejuve só poderia aplaudir. Com sua ação, Evo retomou o pleno controle do movimento social, unificou as forças populares e isolou a direita conservadora e liberal - em especial as entidades civis e empresariais de Santa Cruz de la Sierra - num gueto do "antinacional".

Projeto brasileiro

Contudo, o caráter de espetáculo e de alta dramaticidade do "supremo decreto" - incluindo aí sua denominação apelativa dos momentos trágicos da história nacional - cuidadosamente preparado com grande antecedência, acaba por criar uma situação difícil para o Brasil e a liderança do presidente Lula da Silva no continente. Salvando sua condição eleitoral, Evo criou graves problemas eleitorais para Lula e a condução da política externa.

Além de nacionalizar as reservas de gás e petróleo - o que era esperado e sabido - Evo expropriou os ativos da Petrobras e fez o favor de fazê-lo entrando com tropas a

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