Se os teólogos não estivessem tão ocupados em outros assuntos, seria de lhes pedir nova prece em que se suplicasse ao Senhor a graça do bom senso. Quando todas as evidências nos mostram a estupidez que vem sendo a globalização da economia e a demissão do Estado frente ao Mercado, o governo - e governo petista - arregimenta todas suas forças, a fim de sacramentar, com a lei, e em obediência ao Fundo Monetário dos Trabalhadores (FMI), ao Banco Mundial e à Organização Mundial do Comércio (OMC), a submissão do que é público ao que é privado em nosso país.
O novo relatório da ONU sobre a situação mundial é o atestado formal de que o neoliberalismo foi uma calamidade para os povos do mundo: os países pobres se tornaram ainda mais pobres, invertendo uma tendência de melhoria que durou do fim da Segunda Guerra Mundial até a crise do petróleo. Mesmo a partir da crise do petróleo e do aumento alucinado da prime rate dos juros norte-americanos no início dos anos 80, a situação ainda era administrável. A queda do muro de Berlim e a capitulação de Gorbatchev deram aos Estados Unidos a coroa imperial e o direito a saquear o planeta.
Por uma dessas coincidências, a divulgação do relatório da ONU se faz ao mesmo tempo em que se revela o controle do FMI e do Banco Mundial pelo Departamento de Tesouro dos Estados Unidos, conforme divulgou ontem O Globo. Quem, na realidade, preside o FMI e o Banco Mundial é o Secretário do Tesouro, que determina as condições de empréstimos aos países necessitados, impondo cláusulas de vassalagem e as taxas a serem cobradas, e veta operações em nome do interesse político e econômico de Washington. Para os observadores mais atentos, nenhuma surpresa.
O tão elogiado Lord Keynes, que havia, com bom senso, prevenido os Aliados contra as exageradas reparações de guerra exigidas dos alemães em Versailles, em 1919, pisou na bola ao decidir, com sua influência intelectual, os resultados da Conferência de Bretton Woods, em 1944. A criação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, com a transformação do dólar em moeda de referência no mundo, foi, pela má-fé que o conduziu, o mais perverso contrato da História, em favor dos que se consideraram os maiores vitoriosos da guerra, os anglo-saxões. Ao não participar do encontro de Bretton Woods, a então União Soviética pôde adiar a sua dissolução, que teria sido mais rápida se houvesse aderido naquele momento ao convênio monetário.
O conflito com a Argentina - que coloca em risco o Mercosul - nos mostra que os convênios comerciais e econômicos são sempre precários. O ideal de uma comunidade nacional é aquilo a que os gregos davam o nome de autarquia: o autogoverno pleno e a completa independência econômica. Um país como o Brasil só se desenvolverá realmente se contar com a solidariedade interna. Não há solidariedade internacional, a não ser como instrumento de política de domínio: o que os ricos dão com alguns dedos, retomam com as duas mãos.
Os homens públicos de hoje, com as poucas e conhecidas exceções, não conhecem História, pouco sabem de economia, e, no fundo, não entendem o que significam Estado, República, Nação. Se examinassem a História, verificariam que nada é mais antigo do que o que pretendem agora. A nossa miséria crônica se deve a uma dívida internacional crônica, que se tornou catastrófica em alguns momentos históricos, como ocorreu no Segundo Reinado. Naquele tempo, prosperou a parceria público-privada nas obras de infra-estrutura, que levaria, no arrasto, ao encilhamento, à grande crise cambial da República em seus primeiros anos, e à recessão terrível determinada pela política monetarista de Joaquim Murtinho.
O bom senso nos diz algumas coisas: sem o protecionismo, inaugurado por Cromwell no século 17, com os Navigation Acts, a Inglaterra não teria sido o grande império dos dois séculos que se seguiram. Sem o protecionismo, pregado por Hamilton, em seu Relatório sobre as Manufaturas, e exercido pelos s