Por Mário Augusto Jakobskind - Está nas livrarias uma nova edição do livro O Ato e o fato – o som e a fúria do que se viu no golpe de 64. Trata-se de uma série de crônicas escritas por Carlos Heitor Cony no Correio da Manhã e servem para mostrar o que significou para os brasileiros o golpe civil militar que teve o aval dos Estados Unidos.
Cinquenta anos depois, pode-se ler o livro de crônicas de Carlos Heitor Cony, escritas nos dias que se seguiram ao golpe de 1964
Está nas livrarias uma nova edição do livro O Ato e o fato – o som e a fúria do que se viu no golpe de 64. Trata-se de uma série de crônicas escritas por Carlos Heitor Cony no Correio da Manhã e servem para mostrar o que significou para os brasileiros o golpe civil militar que teve o aval dos Estados Unidos.
Quem leu na época deve se lembrar. Quem não leu terá a oportunidade de tomar conhecimento agora de fatos escabrosos ocorridos na ocasião.
Cony começou a escrever “não para ser lido por generais” que não o compreenderiam nem gostariam de sua literatura, como disse o próprio autor, no dia 2 de abril. Na sua primeira crônica, Da Salvação da Pátria, Cony conta como foi a tomada do Forte Copacabana pelos militares golpistas.
Produziu textos brilhantes para informar os brasileiros sobre o inferno astral que se abatia sobre o país. Preso seis vezes ao longo dos anos da ditadura, Cony chegou a ser censurado pelo Governador Carlos Lacerda, que exigiu que um seriado em formato de telenovela intitulado Comédia Carioca, apresentado na então TV Rio, fosse retirado do ar.
O censor Lacerda não se conformava com o fato de um dos personagens, um ascensorista do Instituto de Previdência Social (então INSS), aposentado pelo AI-1, fosse apresentado aos telespectadores. Do elenco faziam parte Sady Cabral, o aposentado, Eva Vilma e John Herbert, entre outros.
Figuras como Lacerda faziam e aconteciam em nome da democracia. Promoviam uma série de desmandos sob o argumento de que combatiam a “subversão” e a “corrupção”. Depois, muitos apoiadores do golpe romperam com os detentores do poder de fato por terem se convencido que entraram numa gelada. Lacerda rompeu depois de ficar claro que não haveria eleições presidenciais em 1965. JK eacreditou em Castelo Branco, votou nele, mas em seguida teve os diretios políticos cassado e a eleição direta de 1965 nunca ocorreu.
Roberto Marinho, segundo documentação com base em telegramas reservados do Embaixador Lincoln Gordon, tornada pública nos Estados Unidos e já divulgada por aqui, alertava Castelo Branco sobre o “perigo”que representava a volta de oposicionistas e queria a não realização da eleição direta. Convenceu Castelo Branco a convocar Juracy Magalhães para o Ministério da Justiça pois confiava que o referido político ia endurecer contra a oposição. Juracy, para quem não se lembra, é o autor da célebre frase “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.
O próprio Cony, que antes do golpe era um crítico de João Goulart em seguida passou a denunciar os desmandos do regime ditatorial.
Para se ter uma ideia do perfil político de Cony, em uma das suas crônicas, O Medo e a responsabilidade, ele lembra que por falta de confiança em Goulart votou em branco no plebiscito de 1963 sobre Presidencialismo ou Parlamentarismo. Na justificativa chegou até a ofender o Presidente da República.
Ao se tornar um duro crítico do regime instalado em 64 Cony foi perseguido pelos detentores do poder ao ponto de duas de suas filhas terem sido sequestradas por um oficial da Marinha, que conseguiu ludibriar professoras do colégio onde elas estudavam. O fato não assumiu proporções mais graves porque a placa do carro particular que levou as meninas tinha sido anotada, o que foi visto pelos sequestradores.
Eram tempos iniciais da ditadura e os militares ainda não tinham aparelhagens mais sofisticadas para realizar certas ações, até mesmo no uso de placas frias. Do Posto Seis de Copacabana elas foram conduzidas até as proximidades do Túnel Rebouças onde foram soltas depois de sofrerem ameaças de violência física.
Cony não se intimidou e continuou contando verdades. Através dele ficamos sabendo também que “dois vespertinos mais diretamente comprometidos e beneficiados pela quartelada” (O Globo e Tribuna da Imprensa) pediam que os militares golpistas agissem contra os integrantes do Comando de Trabalhadores Intelectuais, criado em outubro de 1963 por sugestão do editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira.
A Tribuna de Imprensa, sob o comando de Hélio Fernandes depois também mudou de linha editorial combatendo a ditadura, mas apoiou o golpe ao extremo. O Globo continuou sempre apoiando os golpistas utilizando linguagem próxima aos dos dias atuais de criminalização dos movimentos sociais. Só quase 50 anos depois do golpe os filhos de Roberto Marinho, apoiador mor da ditadura, decidiram fazer autocrítica do “erro editorial” representado pelo apoio ao golpe de 64. Apesar disso, o jornal seguiu na linha anterior, tentando apenas adotar uma linguagem mais sofisticada na defesa de ideais que os golpistas tentaram impor goela à dentro do povo brasileiro.
Na sua primeira crônica intitulada Salvação da Pátria, em 2 de abril de 1964, Cony relata o que viu no Posto Seis relacionado com a tomada do Forte de Copacabana. Ele termina a crônica afirmando que se recolhia ao“sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia”.
A releitura das crônicas de Cony ajuda a melhor entender o que significou a longa noite escura que se abateu sobre o Brasil depois de 1 de abril de 1964 e que na verdade tem reflexos até nos dias atuais. Já se avançou bastante em termos de informação dos acontecimentos, mas ainda há muito a contar. O Ato e o fato abre caminho nesse sentido. Deve servir de referência para as novas gerações e também de incentivador de pesquisas acadêmicas relacionadas com o estudo e análise dos acontecimentos da época.
Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil); preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI – seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla (no prelo).Direto da Redaçãoé editado pelo jornalista Rui Martins com o apoio do Correio do Brasil.
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