Rio de Janeiro, 05 de Fevereiro de 2026

O aplauso das vaias

Por Flávio Aguiar - A direita e a extrema-esquerda dão-se as mãos para aplaudir as vaias contra Lula no Maracanã. Não conheço na história, numa circunstância dessas, nem vaia nem aplauso que não parta de uma orquestração. A puxada dos aplausos partiu da tribuna; quem terá puxado as vaias? (Leia Mais)

Segunda, 16 de Julho de 2007 às 19:50, por: CdB

Mais uma vez a direita e a extrema esquerda dão-se as mãos. Desta vez é para aplaudir as vaias contra Lula no Maracanã. Na imprensa oligárquica comemora-se e denuncia-se: quem falar que houve orquestração nas vaias é idiota. Voltam as teses de preconceitos vários: é a classe média contra o Bolsa Família, é o Sudeste/Sul contra o Norte/Nordeste, e por aí vai. Voltam os velhos clichês: o Rio é mesmo “irreverente”, etc.

O Estadão eletrônico pelo menos registrou que houve divisão no estádio: uma parte vaiou, outra parte aplaudiu, quando os aplausos foram puxados a partir da tribuna de honra. Ou seja, houve reação às vaias. É claro que a importância da notícia fica com as vaias, mas pelo menos houve, nesse caso, o registro da não-unanimidade. Porque o que a direita e a esquerda da esquerda comemoram é que “O Maracanã vaiou Lula”, “O Rio vaiou Lula”.

De minha parte, não conheço na história, numa circunstância dessas, nem vaia nem aplauso que não parta de uma orquestração. A puxada dos aplausos partiu da tribuna; quem terá puxado as vaias? DEMs distribuídos? Os incansáveis PSTUs e PSÓIS compactados? Tudo junto? É mais provável. Mas vá-se saber ao certo. O que é certo é que em estádio, vaia e aplauso pegam mais do que riso em teatro e cinema.

Pegou novamente pela direita e pela extrema esquerda a campanha implícita (não é preciso conspiração clássica para tanto, venho insistindo nisso) de que é necessário, absolutamente necessário “parar o governo Lula”. Com suas ainda que por vezes timoratas iniciativas populares, o governo Lula moveu o nosso Leviatã (o paquidérmico Estado brasileiro) alguns graus a bombordo, isto é, à esquerda em relação à sua proa. Isso é insuportável tanto para a direita quanto para a extrema esquerda. Para a direita porque lhe provoca pânico (de perder privilégios e rendas) e asco (de ver o povão feliz). Para a esquerda da esquerda porque lhe rouba público potencial.

De quebra, como demonstra o artigo de Bernardo Kucinski (o segundo da série sobre os bancos), Lula, seja por vocação, esperteza, intuição ou vontade explícita (ou tudo junto incluído), produziu o milagre de por no nosso Coliseu político, pela primeira vez desde Vargas, algo que pode se transformar num projeto hegemônico e nacional para a sociedade brasileira, quiçá para a América do Sul. É uma articulação política que contempla os de cima, acaudilha os de baixo, promove mobilidade social no meio, ou pelo menos abre vias e faz acenos para que isso aconteça, através do acesso, ainda que mitigado por ora, da classe média mais baixa e do proletariado (ops, desculpem o palavrão) mais alto ao ensino superior.

No plano externo, o governo Lula dá oportunidade à estratégia da diplomacia à esquerda dos “barbudinhos”, como se chamou historicamente a então nova geração de diplomatas formados depois que Azeredo da Silveira assumiu o Itamarati no governo Geisel. Essa oportunidade deu espaço a um passo histórico, fazendo que o Brasil assumisse uma posição de liderança na negação da Alca, na afirmação do Mercosul, na luta contra a desigualdade do comércio mundial, puxando até a Índia e a África do Sul, além da Argentina e quem sabe um dia o México, para essa frente.

Ocorre que tudo isso é insuportável para a nossa burguesia e seus “protegés” que guardam o espírito oligárquico. Esse setor da sociedade brasileira desenvolve urticárias, erisipela, furúnculos, herpes, cada vez que ouve falar em “América Latina”, em “projeto nacional”, e coisas assim. Foi-se o tempo, por exemplo, em que parcela da burguesia quatrocentona (para dar um exemplo) de S. Paulo se orgulhava de ter na família “uma avó caçada a laço” (a expressão corrente era essa mesma), apontando sangue índio nas veias, para se distinguir dos imigrantes recém chegados, sobretudo os italianos.

Agora essas e outras famílias dessa classe (nem todas, vamos assinalar) e também de outras partes do país se orgulham é de ter filhos estudando nos Estados Unidos e na

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