No final de sua reunião de Haia, o Grupo dos Oito ficou mais uma vez à beira da dissolução, considera o articulista político internacional Dmitri Kosyrev.
O Grupo dos Oito, que reunia os sete países mais desenvolvidos do mundo e a Rússia, não existe mais
A exclusão da Rússia do Grupo dos Oito, que era uma previsão segura e inevitável do encontro de Haia dos sete membros desse clube, como a imaginavam? Mais ou menos assim: a partir de agora o clube só tem sete países. Assinado e carimbado. Em Haia isso não aconteceu, aconteceu qualquer coisa mais vaga, com nuances, ressalvas e correntes submarinas. Mas, o mais interessante aqui é o que irá ser esse “grupo de não se sabe quantos países” e qual será seu futuro.
Enquanto Moscou não “mudar de rumo” …
Esta história começou quando sete dos oito líderes dos países membros do clube decidiram se reunir “à margem” da cúpula sobre segurança nuclear que se realiza uma vez a cada dois anos. Essa cúpula lança e controla programas do tipo de seminários para especialistas de reatores nucleares para produção de energia, etc. A ideia do “encontro sem a Rússia” era magoar e despeitar Moscou. O fato de, devido à adesão da Crimeia, não se realizar a cúpula seguinte do G8 em Sochi já era esperado e calculado com antecedência. Mas todos esperavam ainda alguma declaração conjunta clara, dos sete que se reuniram, sobre o futuro do clube como tal.
Eles publicaram um comunicado, em que o sentido do texto completo é, para começar, resumido no fato de que a “escalada” da situação na Ucrânia e, aliás, na Crimeia iria provocar novas sanções, desta vez sérias. Mais: a Ucrânia terá de ser ajudada com dinheiro. Finalmente, relativamente à Rússia as coisas ficam literalmente da seguinte forma: os sete países “interrompem” (ou “suspendem”) provisoriamente sua “participação no G8”. Este ano, em vez dos oito líderes em Sochi, serão sete se reunindo em Bruxelas, no mesmo mês de junho.
Porque surgem declarações tão complicadas? No mesmo encontro em Haia, o ministro russo das Relações Exteriores Serguei Lavrov recordou que se tratava de um clube informal, que nem sequer possui procedimentos de admissão ou de exclusão. Portanto, em geral a situação é que, por um prazo indeterminado, enquanto “a Rússia não mudar de rumo” (diz o comunicado), o Grupo dos Oito ficará numericamente reduzido, e o que acontecerá a seguir – o futuro o dirá.
Nikita Khrushchov, líder do Estado Soviético nos anos 50 e 60, se tornou famoso em política externa, entre outras coisas, por ameaçar mostrar aos imperialistas “a mãe de Kuzka”, uma expressão popular de ameaça. Mas com isso ele apenas assustou os tradutores que simplesmente não conseguiram transmitir toda a especificidade dessa notável expressão russa.
A reunião dos sete membros do G8 em Haia é uma demonstração diplomática clássica da “mãe de Kuzka” ou a sua versão modernizada.
Só como comparação: umas horas antes no mesmo local, ou seja em Haia, os ministros das relações exteriores do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) se reuniram. Eles poderiam ter feito o mesmo que os seus sete colegas – fazer alguma coisa para magoar alguém. Mas nem Moscou, mais ninguém, precisa disso. O encontro estava planejado não como reunião ideológica, mas de negócios, era preciso discutir os detalhes da próxima cúpula do BRICS no Brasil. Foi isso que foi discutido. Relativamente à Crimeia e à Ucrânia, a Rússia recebeu, nas palavras de Serguei Lavrov, “a compreensão dos aspectos históricos de toda essa situação e estamos gratos por isso aos nossos parceiros”.
Como seria de esperar, imediatamente se seguiram explicações para os mais lentos por parte de alguns desses sete líderes que “isto é um duro golpe” (seria uma tradução exata da “mãe de Kuzka”?), e que a Rússia precisa mais do G8 do que o G8 precisa da Rússia.
Já esta última afirmação é bem interessante. Especialmente se recordarmos uma história relativamente recente, mas já quase esquecida.
O clube onde ninguém quer entrar
Esta história ocorreu na primavera de 2010. Na altura se debatia se o G8 iria sobreviver ou se se extinguiria por não ser necessário.
Vou citar o meu próprio material escrito na época:
“O G8 irá morrer brevemente. Brevemente no sentido diplomático, é claro: dentro de uns dois anos. Depois da cúpula no Canadá, a presidência do clube é assumida pela França, e as pessoas que conhecem as posições de Paris dizem que o presidente Nicolas Sarkozy poderá propor sua autoextinção. Este foi o tema da conversa, dizem fontes bem informadas, entre os ministros da França e da Inglaterra no campo de golfe de Gatineau, e o inglês David Miliband aliás também não se mostrou otimista quanto ao futuro do Grupo dos Oito.
“Claro que há diferentes tipos de morte. Existem no mundo organizações que só existem porque seus participantes se habituaram a conviver: são organizações-zumbi. Mas os mesmos oito líderes se encontram neste momento duas vezes por ano nas reuniões do Grupo dos Vinte. Então para que serve isso? Eis mais um grande prego no caixão do G8. O Canadá, onde desta vez se reunirão o G8 e o G20, com um intervalo de um dia, tinha começado convidando para a cúpula do Grupo dos 8 os convidados já habituais: os membros do BRICS (e do G20) – China, Índia, Brasil e mais um ou dois. Mas desta vez eles… recusaram. Isso já é mesmo o fim, se bem que alguém poderá mudar de ideia e procurar um compromisso. Se um convite de um clube, que já foi quase apelidado de governo mundial, é recusado, isso quer dizer que ele vai mal.”
Em outras palavras, já nessa altura a composição do Grupo dos Oito parecia arcaica e pouco convincente. Ele não parecia de forma nenhuma um grupo dos países mais influentes do mundo. Nele faltavam os tais China, Índia, Brasil, etc., que começaram, ano após ano, sendo convidados até finalmente terem recusado o convite.
Mas continuo minha citação:
“O problema do G8 é ele ter sido inicialmente criado (em 1975) com a convicção de seus participantes de que eles, o Ocidente, são os líderes mundiais, que eles são os mais fortes economicamente e que têm sempre razão… Essa era uma ideia de defender e perpetuar a supremacia de uma civilização inteira com sua própria ideologia e tudo o mais. A Rússia foi alí admitida mais tarde, com a ideia de a “incluir” nesse esquema. Mas o mundo de hoje é construído por esquemas completamente diferentes.”
Em 2010, temos aqui de acrescentar, Nicolas Sarkozy decidiu que afinal não era ainda necessário dissolver o G8, convencendo disso também os outros. Ele teria razão?
Uma das justificações para a sua posição foram as afirmações que a utilidade do Grupo dos Oito estava afinal na concordância da Rússia em participar, ao contrário da China, Índia e outros, e que graças a isso os antigos “donos do mundo” podiam tomar o pulso das intensões dos potenciais futuros donos. Sem a Rússia o clube dos sete iria parecer mais uma fortaleza sitiada (moralmente, claro), e enfraquecida desde 1975, chamada Ocidente.
No final da reunião de Haia, o clube que chegou a se posicionar, se não como um “governo mundial”, pelo menos como o conjunto dos líderes dos países mais importantes do mundo, volta a enfrentar a situação que quase provocou sua dissolução há quatro anos. Isso é uma situação muito desfavorável, é a tal demonstração de fraqueza que muitos dos seus participantes tentaram evitar.
Dmitri Kosyrevé jornalista, comentarista político da agência russa de notícias Rossiya Segodnya e doCorreio do Brasil.
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