Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

O ano dos anos 80

Segunda, 13 de Dezembro de 2004 às 08:02, por: CdB

Os movimentos culturais da década de 80 no Brasil começaram a ser revistos de uns anos para cá. Mas, definitivamente, 2004 foi o período mais fértil dessa análise. Nesse ano tivemos: A Tela Aberta: Ilusões da Democracia, mostra no CCBB que trazia filmes produzidos no processo de redemocratização do país; uma retrospectiva no MAM de filmes do Brock; a cinebiografia do ícone dos anos 80, Cazuza; o lançamento de livros sobre o grupo teatral Asdrúbal trouxe o trombone; a exposição de artes plásticas Geração 80, onde está você?; a reabertura do Circo Voador; e, por último, o lançamento de Quem tem um sonho não dança - Cultura jovem brasileira nos anos 80, de Guilherme Bryan (Ed. Record). Conversamos de maneira eletrônica com o autor de Quem tem um sonho sobre esse revival dos anos 80, a diferença entre a geração daquela época e a de hoje, entre outras coisas. 2004 certamente foi o ano da década de 80.
 
- Por que os anos 80 começaram a ser, sistematicamente, tão valorizados? Existem alguns livros sobre a época (com o seu, eu conto quatro) e agora filme (Cazuza), mas até há um tempo atrás, eram pouco valorizadas as manifestações culturais da época, tidas como cafonas, datadas, etc.

- Acredito que os anos 80 hoje são tão mais valorizados do que antes pelo fato de quem tem agora por volta de 30 anos possui um certo distanciamento temporal e os meios necessários para mostrar o quanto o que foi produzido naquela época foi determinante na sua formação cultural. Durante muito tempo, a década de 80 foi vista como perdida, cuja contribuição cultural para o Brasil havia sido praticamente nula, quando isso não corresponde à verdade. Muito pelo contrário. Muito do que valorizamos hoje na cultura brasileira surgiu nos anos 80.

- Qual seria a diferença básica entre aquela geração de 80 e a de hoje?

- A geração dos anos 80 trouxe um grande vigor para a cultura brasileira, manifestando sua alegria em estar viva e deixando para trás uma certa amargura das décadas anteriores. Hoje, de certa forma, ainda vivemos o resultado do que começou a ser bolado nos anos 80, tanto nos aspectos positivos quanto nos negativos, caso dos yuppies, com seu individualismo exacerbado e sua egolatria. Claro que os tempos são outros, mas ainda não temos as condições necessárias para podermos compreender melhor a década de 90 e esta primeira do século 21, mas acho que muita coisa boa continua sendo realizada na cultura brasileira. É só olhar com um pouco mais de carinho e dar mais chances para que as novas gerações possam se manifestar.
 
- O que você achou do filme do Cazuza? Souberam recriar aquele período e o mito?

- Não me considero no direito de avaliar o filme, afinal não sou um crítico de cinema, mas sim um admirador do trabalho do Walter Carvalho e da Sandra Werneck, que, inclusive, começaram a ganhar destaque durante os anos 80. Mas, para mim que fiquei durante quase 8 anos submerso de volta aos anos 80, foi muito emocionante ver o filme "Cazuza - O Tempo Não Pára". Claro que um filme não vai conseguir representar todos os momentos de um artista que viveu tão intensamente cada momento da sua vida, mas a homenagem foi bastante válida até no sentido de apresentar um dos compositores mais importantes da história da música brasileira para uma nova geração que não sabia exatamente quem foi o Cazuza.

- Como você vê a relevância daquela década em relação às outras?

- Todos os períodos históricos têm as suas qualidades e seus defeitos e é sempre a partir deles que podemos construir o futuro. A década de 80, graças a dois momentos fundamentais da década anterior - o trabalho teatral do Asdrúbal Trouxe o Trombone e o movimento punk, com seu lema "faça você mesmo" - trouxe um novo vigor para a cultura nacional. Com o início da redemocratização do Brasil e com a abertura política, os jovens puderam passar a tratar mais abertamente de temas como relacionamentos amorosos, dr

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