Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

O Abril Vermelho e o Futuro Gris

Por Flávio Aguiar - Ninguém gosta muito de "o povo", embora com freqüência se fale em nome dele. "O povo" mostra, mais uma vez, que é indomável quando aparece. Como diz um amigo meu, "o problema do povo é que ele é muito popular". (Leia Mais)

Quinta, 29 de Abril de 2004 às 07:43, por: CdB

"A coisa é feia e vem se debruçando": este é um dito registrado no Dicionário do Portoalegrês, do professor e meu amigo Luís Augusto Fischer, que devia se espraiar pelo país inteiro. É que ele descreve bem a situação política e social do momento. Enquanto isso, as indicações econômicas navegam em céu de brigadeiro, ou voam em mar de almirante: o FMI "nos" elogia, as bolsas de valores são escutadas religiosamente pelos potentados, ronquem, ressonem ou só sussurrem.

Resta saber o que é "a coisa" que está vindo. Olhando-se a nossa imprensa, essa coisa é "o abril vermelho". Lêem-se diatribes diárias contra a onda de. de quê, mesmo? Ora, de presença de algo, ou de alguém absolutamente indesejável no cenário político, isto é, "o povo". "O povo está nas ruas", está nas alamedas, nas avenidas, nos campos, está em toda parte, mostrando a cara, seja ela feia ou bonita.

Ninguém gosta muito de "o povo", embora com freqüência se fale em nome dele. "O povo", como se demonstra nesse abril, e mais uma vez, é indomável quando aparece. E como diz um amigo meu, muito irônico, "o problema do povo é que ele é muito popular".

O MST veio à tona. E daí vieram as manifestações dos sem-teto, em São Paulo. Os funcionários públicos estão em pé de guerra, depois de serem tratados por nove anos, os oito de Fernando Henrique mais este último de Lula, como os responsáveis pela inadimplência crônica do estado brasileiro. Os índios se manifestam, e por aí vai.

Há problemas? Há. A ausência de ações positivas do estado levanta casos como os da Rocinha. Os presídios esbanjam cenas de selvageria, como em Rondônia. Combates por campos de garimpo expõem feridas como os massacres em terras indígenas.

Há novidades nessa vermelhidão de abril? Não. Há, isto sim, uma retomada. Os meses de março, abril e maio no Brasil sempre foram "vermelhos". São meses que se aglutinam em torno da data histórica do 1o. de maio. O esforço mais persistente de "desativar" essa data foi feito pelo governo de FHC, antecipando o reajuste do salário mínimo para o mês de abril. Em troca de uma vantagem monetária mensal, desarmava-se o gatilho simbólico das classes trabalhadoras.

Mas vendo-se as páginas e páginas da nossa imprensa sobre a emergência renovada das manifestações do povão, tem-se a imagem de que tudo é quase a mesma coisa: decapitações em Rondônia, massacres no garimpo, lutas pela reforma agrária, lutas por uma política coerente de habitação.

É o secreto horror à emergência do povo organizado que assoma. Porque se algo tem o poder de neutralizar a cultura necessária à eclosão das cenas de selvageria que presenciamos, esse algo é a organização, manifestação, presença, do povo organizado em frentes de luta. Isto reabre o futuro, isto mostra que a esperança não morreu, isto mostra que esta nação está viva, isto demonstra que a política é necessária, isto demanda que a economia seja uma prática, não um império.

Enquanto isso, o que vemos no espaço político institucional? A direita reverbera: o "abril vermelho" é a declaração da incompetência do governo Lula, incapaz de gerenciar o povo que o elegeu. Ao mesmo tempo lemos o festival de incoerência que assola o país: o ministro de ontem que assinava o Ato-5, que ajudava o país a mergulhar no endividamento externo inclusive abdicando da soberania ao acolher tribunais de país credores como julgadores de pendências, hoje clama contra a dependência ao exterior!

Os jornalistas que festejavam a modernização globalizante, até quem saudava a indicação de perfis conservadores para o Banco Central e para ministérios no governo Lula como uma vitória de Davos (leia-se, o simpósio dos dirigentes das classes dirigentes) sobre Porto Alegre (leia-se, o Fórum Social Mundial e sua acolhida na capital vermelha), hoje clamam contra a submissão à lógica dos mercados!

No governo a situação não vai melhor. Diante do "abril vermelho", pede-se que não se radicalizem as ações. Leia-se: "não

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