Rio de Janeiro, 11 de Maio de 2026

O abraço afogado

Terça, 30 de Agosto de 2005 às 06:56, por: CdB

Os membros do grupo que dirige o PT há dez anos, tenham ou não culpas a expiar, não querem largar a estrela vermelha de jeito nenhum. O único, e grande, perigo é que tanto apego acabe se transformando num abraço de afogado e destruindo o PT.

Primeiro foi a inércia, que tomou conta da maioria dos seus quadros dirigentes assim que surgiram as denúncias sobre o esquema de caixa dois operado pelo publicitário Marcos Valério. Em seguida, os não diretamente envolvidos quiseram salvar a pele, enquanto os diretamente envolvidos tentavam se defender, o que gerou um clima de "salve-se quem puder" e, mais tarde, de duelo fratricida. Finalmente, depois de ultimatos e de intensas negociações internas, o campo majoritário do PT, que é o conjunto de tendências que dirige o partido, começa a tentar se reequilibrar.

Esse equilíbrio passa pela resolução dos impasses. A semana que se inicia trará a definição de qual será o nome do cabeça da chapa do campo majoritário para o Processo de Eleições Diretas do PT (PED), que escolherá o novo presidente do partido no dia 18 de setembro.

O atual candidato, Tarso Genro, que também ocupa a presidência provisória do PT, deve anunciar sua renúncia nas próximas horas, depois de ver fracassar sua tentativa de afastar o ex-ministro José Dirceu da chapa majoritária. O provável substituto de Tarso deve ser o deputado federal e também ex-ministro Ricardo Berzoini, que atualmente ocupa a secretaria-geral provisória do PT e já anunciou que "aceita a tarefa" e "não vai fugir a essa responsabilidade".

Berzoini certamente não é o candidato dos sonhos da direção do campo majoritário, mas é o nome possível nesse momento. Nomes mais densos como Luiz Dulci (secretário-geral da Presidência da República) e Marco Aurélio Garcia (secretário de Relações Internacionais) foram tentados antes dele, sem sucesso.

Além da trajetória política de décadas e da reconhecida bagagem intelectual, Dulci e Garcia transformaram-se agora numa espécie de reserva moral do campo majoritário, mas, talvez até por isso mesmo, alegaram questões pessoais e declinaram gentilmente do convite para ocupar a cabeça da chapa majoritária. A seu favor, Berzoini conta com o trânsito relativamente bom que tem junto às tendências de esquerda do PT. O deputado, que tem sua origem política no grupo de Luiz Gushiken, também pode ser um bom nome para cumprir o papel de condutor do diálogo entre os principais nichos de poder dentro do campo majoritário nesse momento tão delicado.

Sem entrar no mérito da culpa ou inocência de José Dirceu, pode se dizer que a vitória sobre Tarso Genro na queda-de-braço política pública a que ambos se dedicaram nas duas últimas semanas mostra que os rumos do PT ainda são definidos, como vêm sendo nos últimos dez anos, pelo grupo dirigente que gravita em torno do ex-ministro. Passado o pior da tormenta, é natural que os membros desse grupo procurem defender seu patrimônio político coletivo, mas o problema no campo majortário parece ser o de reconhecer se é ou não necessário sacrificar alguns indivíduos em nome do bem comum.

Apesar de alguns nomes de peso do grupo dirigente petista, como o senador Aloizio Mercadante, terem trabalhado com afinco nos bastidores para afastar o grupo ligado a Dirceu, ao menos oficialmente, da chapa majoritária, o clima de otimismo com a perda de velocidade da crise conduz todos à acomodação. Alguns deputados envolvidos no valerioduto, antes cabisbaixos, já falam com novo entusiasmo até das possibilidades de reeleição de Lula.

Nesse clima de autopreservação crescente, a postura desenvolvida por Tarso Genro nas últimas semanas acabou o afastando da cúpula da atual direção. O ex-prefeito de Porto Alegre aceitou ser presidente provisório do PT e candidato na chapa majoritária, mas claramente estava ignorando as orientações do grupo e fazendo um jogo político próprio. Como Tarso é conhecido no PT por seu individualismo político, essa postura errátic

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