Rio de Janeiro, 01 de Setembro de 2026

Nutrição e Educação não significam ascensão social no País

Pesquisa aponta os fatores que mais influenciam a possibilidade de mobilidade social no Brasil, indicando o desenvolvimento dessas possibilidades ao decorrer do último século. No caso brasileiro, estudos ainda constatam considerável disparidade dos ritmos de desenvolvimento da escolaridade e do estado nutricional.

Sexta, 15 de Outubro de 2010 às 06:45, por: CdB

Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP aponta os fatores que mais influenciam a possibilidade de mobilidade social no Brasil, indicando o desenvolvimento dessas possibilidades ao decorrer do último século. No caso brasileiro, estudos ainda constatam considerável disparidade dos ritmos de desenvolvimento da escolaridade e do estado nutricional. A nutricionista Larissa Galastri Baraldi, autora da dissertação de mestrado Estado nutricional, escolarização e mobilidade social no Brasil utilizou três inquéritos nacionais para sua pesquisa: Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF-1975), Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN-1989) e Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF-2003), todos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com os dados analizados, as vantagens observadas na situação nutricional e na quantidade de anos estudados pelos filhos, relativamente aos pais, não se traduziram em maiores chances de ascensão social. Para chegar a essa conclusão, duas questões iniciais foram propostas: a situação de nutrição e escolaridade dos filhos é superior a dos seus pais? Se sim, essa mudança apenas acompanhou a evolução média da sociedade ou deixou os filhos em posição social superior à de seus pais? Segundo a pesquisadora, uma sociedade pode evoluir de modo congelado (todos melhoram ou pioram em conjunto) ou de modo dinâmico, com filhos ocupando postos acima daqueles ocupados por seus pais. – Essas duas respostas contam se o Brasil pretende evoluir como sociedade que oferece oportunidades a todos ou como sociedade na qual a herança familiar e social é mais influente na determinação do futuro profissional de cada criança –, destaca a pesquisadora. Ao iniciar seus estudos, a pesquisadora acreditava que a diferença encontrada entre as possibilidades de mobilidade social das pessoas bem nutridas e das pessoas mal nutridas seria bastante acentuada. No entanto, quando comparou a probabilidade de ingresso na universidade entre pessoas bem e mal nutridas, a diferença foi muito menor do que se esperava. – O estado nutricional não é fator determinante da possibilidade de mobilidade social. É um indicador importante de condição social, que junto a outros indicadores e fatores determinam as condições de mudança de classe. Nas análises, percebeu-se que os resultados obtidos variavam de acordo com as décadas estudadas. A partir deste ponto, foi cogitada a importância do contexto histórico. Há períodos referentes a alguns governos em que a nutrição nitidamente foi prioridade, em detrimento da educação. Nessa discussão, Larissa sugere algumas importantes questões para a política do País: – Já que é mais fácil e rápido obter resultados quando se investe em nutrição, como mostrou a pesquisa, os políticos preferem deixar a educação em segundo plano, pois requer mais investimentos e tempo para surgirem os resultados. Segundo Larissa, é tempo de aprofundar o olhar a respeito das causas econômicas e políticas intimamente ligadas aos problemas de Nutrição e Educação. Um dos motivos pelos quais decidiu continuar nesta linha de pesquisa foi ter-se espantado com o fato de, no Brasil, o nível de escolarização dos filhos tender a reproduzir o nível de escolarização dos pais, o oposto do ideal de mobilidade social. – Este trabalho levanta a discussão da situação real de crianças e jovens no País, que está melhorando, mas precisa ainda de mais investimentos na área social. Nutrição é necessidade básica, mas não depende só disso. Quando a preocupação vai estar na qualidade e não apenas na quantidade, nos números? –, concluiu a autora. O debate sobre o quanto efetivamente a Nutrição relaciona-se com o ingresso do jovem brasileiro ao Ensino Superior, também sugerido na dissertação, concedeu à autora destaque em Portugal, no Segundo Congresso Mundial de Nutrição e Saúde Pública. Dentre as abordagens do artigo premiado, está a queda da porcentagem de adultos-jovens que iniciaram o ensino superior no período 1999-2003 frente ao período 1985-1989, independentes da suas situações nutricionais. Os dados coletados nesta abordagem da pesquisa demonstraram a influência potencial de “fatores contextuais” sobre o nível de escolarização de uma geração, como condição socioeconômica e desigualdade de oportunidades.

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