Luz, câmera e ... revolução. A TV estatal da Venezuela, que apóia o presidente Hugo Chávez, está exibindo uma nova novela que, segundo seus produtores, reflete melhor a vida sob o atual governo do que os programas transmitidos pelas emissoras privadas.
Oposicionistas classificaram a produção "Amores de Barrio Dentro" como uma crua peça de propaganda pró-Chávez.
O país prepara-se para, no dia 15 de agosto, realizar um plebiscito que decidirá sobre o futuro do governo Chávez.
Mas os responsáveis pela novela, cuja trama fala sobre o amor e a vida em um bairro pobre de Caracas, dizem apresentar uma alternativa às transmissões dos canais que criticam Chávez e sua chamada revolução.
"As pessoas estão ávidas para ver outras coisas", disse o diretor da novela, Roman Chalbaud, um conhecido cinegrafista venezuelano.
"(Em "E O Vento Levou..."), a Guerra Civil norte-americana foi o pano de fundo para o romance entre Scarlett O'Hara e Rhett Butler. O que acontece na política influencia as pessoas, para melhor e para pior", afirmou.
A novela, que estreou no final do mês passado, vai ao ar toda quarta-feira e deve durar um ano.
O programa depara-se com uma concorrência acirrada em um país cheio de produções comerciais nas quais beldades envolvem-se em tramas de amor, sexo e traição.
"Amores de Barrio Dentro" tem como pano de fundo a instabilidade que se abateu sobre a Venezuela há mais de dois anos, durante os quais aconteceram, entre outros episódios, uma tentativa fracassada de golpe de Estado e uma greve generalizada no setor petrolífero.
A novela acompanha o relacionamento amoroso entre uma jovem simpatizante de Chávez, que vive em um bairro operário, e um jornalista cujo pai odeia o presidente. Em uma cena estranha que mistura paixão e política, o casal se beija em meio a uma nuvem de gás lacrimogêneo. Enquanto a polícia tenta dispersar manifestantes, o personagem masculino é ferido na cabeça.
A profunda fratura do cenário político venezuelano, opondo governistas e oposicionistas, sempre esteve presente nas TVs do país.
Os canais privados refletem a visão dos adversários de Chávez, apresentando-o como um líder autoritário que não conseguiu combater a pobreza como prometia. Já o canal público faz propaganda dos supostos sucessos do governo dele.
A mídia internacional vem culpando Chávez por incitar a violência contra jornalistas locais com sua retórica. O presidente venezuelano, por exemplo, costuma ligar os quatro principais canais de televisão do país aos quatro cavaleiros do Apocalipse e responsabiliza-os por apoiar um breve golpe de Estado em 2002.
Os produtores dizem que a novela ilustra eventos que os canais privados não cobrem, como patrões anti-governo punindo funcionários por se recusarem a participar de greves e manifestantes da oposição obrigando o comércio a fechar.