Primeira nova reflexão
Confirmou-se por completo e ganhou musculatura a tese central do meu primeiro comentário, então apenas intuída, de que o desastre da TAM deu-se num contexto de maximização de lucros. A estratégia das companhias, que fez de Congonhas um centro nacional de redistribuição de passageiros (“hub”), foi explicada por Daniel Ritter no jornal Valor da sexta e confirmada elo executivo da TAM José Hélcias, no Estadão desta terça:
“.. O modelo de negócios em vigor – aproveitamento de até 14 horas por dia das aeronaves para oferecer tarifas que nos últimos anos ficaram congeladas e até caíram - só se sustenta com o uso de hubs,” escreveu Daniel Ritter. “A centralização em Congonhas, com conexões para todo o país, permitia um maior aproveitamento das aeronaves, estávamos voando 14 horas por dia, contra 7 horas na década passada”, disse José Hélcias.
Nosso leitor Valdisnei diz que as companhias reduziram drasticamente o número de mecânicos de manutenção por aeronave. O Airbus da TAM voava há uma semana sem consertar o reverso, apesar do manual da empresa e normas da Anac obrigarem seu uso em pistas molhadas (1). Nem dava tempo de consertar. Só naquele dia, o avião já havia feito seis vôos, dois deles pousando em Congonhas. Em uma única semana, o Airbus A320 prefixo MBK fez nada menos que 43 vôos.
Nosso leitor Marco Nabuco lembra o cartaz exibido orgulhosamente pela TAM anos atrás, com os sete mandamentos do Comandante Rolim, fundador da empresa: “Nada substitui o lucro”, dizia o primeiro mandamento. Nessa lista, a segurança vinha em terceiro lugar. E o quarto mandamento falava de novo em lucro: “a maneia mais fácil de ganhar dinheiro é não perder”.
Esses mandamentos expressam o que os executivos modernos denominam “missão da empresa”. Eles mostram que a TAM foi instrumental na introdução da filosofia que transformou as concessões de serviços púbicos de transporte, na era neoliberal, em máquinas de fazer dinheiro.
Segunda nova reflexão
Ao anunciar a desativação de Congonhas como “hub”, o governo admite que, mesmo depois de instalado o caos na malha aérea, continuava aceitando criticamente o sistema deixado pelo governo anterior no qual as companhias definiam a política pública para o setor. Essa passividade estava implícita no meu primeiro comentário, mas não suficientemente enfatizada.
É o papel de um governo democrático impor limites ao mercado. Essa guinada de 180 graus, junto com outras recentes, entre as quais a valorização da caderneta de poupança (contra vontade dos bancos) e a proibição ao plantio de cana no Pantanal, pode sinalizar um novo modo de governar, liberto da ideologia neoliberal.
A tragédia trouxe assim o governo Lula à sua encruzilhada maior: ou parte para uma política verdadeiramente desenvolvimentista, que atropele a burocracia, ou será por ela atropelado de morte. Esse tipo de administração está obsoleto. Bastam os números do tráfego aéreo, que cresce a taxas de 20% ao ano.
Os mesmos jornais que apóiam os cortes no orçamento em nome do superávit primário trazem números constrangedores de como o contingenciamento – instrumento principal dessa política neoliberal – trava o PAC e impediu até mesmo a aplicação dos dois fundos aeronáuticos, com mais de R$ 2 bilhões em caixa oriundos de taxas já recolhidas para melhoria do setor.
Exacerba-se a contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e uma administração burocrática amarrada por leis e regulamentos concebidos duas décadas atrás para administrar a estagnação e não o crescimento. Na crise aérea, o governo Lula já é tratado como um estorvo.
Terceira reflexão
Desde o primeiro momento, deu-se a exploração político-partidária da tragédia, pela mídia e pelos principais líderes tucanos, José Serra e Tasso Jereissati. Assim como desastre se dá no contexto de uma crise generalizada