A atriz várias vezes premiada com o Oscar Ingrid Bergman sempre dizia possuir os dois ingredientes essenciais à felicidade: boa saúde e memória ruim.
Felizmente para quem também tem memória fraca -- e para os apaixonados pela longa e incandescente carreira da atriz --, uma mostra notável de objetos relativos a ela foi aberta na Scandinavia House, em Nova York, e continuará até 17 de julho.
A carreira de Ingrid Bergman inclui "Casablanca", "À meia luz", "Interlúdio", "Anastacia - A Princesa Esquecida", três Oscar, triunfos na Broadway e colaborações com cineastas e atores tão famosos que só é preciso mencionar um de seus nomes: Grant, Cooper, Tracy, Crosby, Bogart, Peck, Hitchcock, Cukor, Rossellini, Vidor, Lumet, sem falar naquele outro Bergman, Ingmar.
Além dessa mistura toda, e somando-se à aura de sedução e mistério que envolvia a atriz, houve um escândalo internacional em 1950 que a levou a ser rejeitada por Hollywood durante seis anos, seguido por um renascimento triunfal, o status de ícone e um terceiro ato reverenciado -- e tudo isso está na mostra.
Os materiais expostos vêm de diversas fontes, incluindo as coleções pessoais das filhas de Bergman, Pia Lindstrom e Isabella Rossellini, e dos Arquivos da Universidade Wesleyana de Cinema, de Middleton, Connecticut, onde foram guardados os documentos, cadernos de anotações e diversos outros objetos de Bergman.
A mostra também inclui os três Oscar ganhos pela atriz e o Emmy que recebeu por sua atuação final, na minissérie de TV "A Woman Called Golda", de 1982.
Há, também, quatro figurinos (dois de Dior), filmes caseiros, pôsters de filmes, revistas, um busto de mármore da atriz feito em 1936 e um exemplar da primeira edição do romance "Por Quem os Sinos Dobram", de Ernest Hemingway.
O livro está autografado pelo autor, com dedicatória "para Ingrid Bergman, que é a Maria deste livro". Ingrid usou o volume para ajudá-la a conseguir o papel na versão para o cinema do livro, num momento em que outras atrizes estavam sendo testadas para o trabalho.
Mas o mais fascinante da exposição são as cartas, muitas das quais nunca antes tinham sido expostas publicamente. Há, por exemplo, uma carta de quatro páginas que Roberto Rossellini escreveu a Ingrid, em Hollywood, desde Roma, depois que ela lhe escrevera elogiando seus filmes "Paisà" e "Roma - Cidade Aberta".
Na carta, Rossellini apresentava a idéia do filme que acabou se tornando "Stromboli", justamente aquele que desencadeou o escândalo que prejudicou a carreira de Bergman durante alguns anos.
Também há duas cartas de incentivo que Ingrid Bergman recebeu quando sua relação com Rossellini era notícia de primeira página: uma de Hitchcock ("Toda essa publicidade negativa vai terminar. Afinal, nada é permanente, e as pessoas esquecem em pouco tempo") e outra de Hemingway ("Se houver uma edição do 'Hollywood Reporter' publicada em Roma, vou mandar publicar um anúncio de página inteira dizendo que Ernest Hemingway ama Ingrid Bergman, quer lhe ser útil da maneira que for possível e endossa todos seus atos passados, presentes e futuros").
A mostra também inclui uma carta de instrução de seu mentor, David O. Selznick, à Paramount, relativa ao teste que ela fez em 1942 para o papel em "Por Quem os Sinos Dobram".
Ele insistia: "Nada de batom na boca dela... as sobrancelhas devem ficar como estão... se for usada alguma maquiagem, deve ser feita uma tomada alternativa sem maquiagem alguma."