Quem são os herdeiros do carnaval paulistano? Essa é uma preocupação recente dos dirigentes da folia na capital. Para assegurar o futuro da samba, uma nova geração é formada nas quadras das escolas. Garotos como Tiago Bispo Machado, Bianca Baffini Vieira e Victoria Catarine Ferreira, todos de 12 anos, da Águia de Ouro, e Luan Rocha Teixeira e Marília Cristina Souza Silva, respectivamente, de 6 e 7, da Mocidade Alegre, passam os dias aprendendo a tocar instrumentos de bateria e a ensaiar os passos de mestre-sala e porta-bandeira.
Só nos últimos três anos, o carnaval de São Paulo tem demonstrado preocupação com sua perenidade. No Rio, a Mangueira e Império Serrano mantêm desde os anos 80 seus centros de formação dos pequenos sambistas, com nomes como Mangueira do Amanhã e Império do Futuro.
Em São Paulo, as escolas menores, de acordo com o professor da Escola de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Alberto Ikeda, têm uma tradição de facilitar o aprendizado das crianças.
- Nas maiores, a participação na bateria é muito disputada, por ser uma posição de prestígio. Nas menores, essa passagem é natural.
Até algum tempo, destaca Ikeda, ter alas de crianças era uma espécie de concessão das agremiações. Com a preocupação pela inclusão social na ordem do dia, os pequenos e a velha-guarda, como são chamados os mais antigos, passaram a ter um espaço maior.
Um dos marcos da preocupação com a continuidade do samba foi a criação, em dezembro de 2002, do Projeto Barracão, da Secretaria de Estado de Cultura. Hoje, o projeto está presente em 42 escolas de samba, oferecendo 3 mil vagas ao ano em 80 cursos de instrumentos de bateria e dança para alunos entre 8 e 16 anos, em parceria com as agremiações.
- A cada ano, aumenta o número de alunos que participam dos desfiles, muitas vezes no Grupo Especial. O projeto ajuda a resgatar a cidadania dessas crianças - diz o coordenador Guilherme Bara. E as crianças não perdem a oportunidade de desfilar para a platéia do sambódromo.
- Me sinto muito feliz quando desfilo. Até dá a impressão de que estou voando - conta Bianca.
A tradição familiar vem de longe. A tia, Sandra, é a segunda porta-bandeira da Águia de Ouro.
Victoria, da Mocidade Alegre, campeã do carnaval paulistano de 2004, lembra que desfila em shows de mulatas desde os 2 anos.
- Pretendo continuar estudando e, no futuro, me tornar passista da escola.
A escola Imperial, do Jardim Popular, na zona leste, e a Lavapés, do Cambuci, também apostam nos seus futuros componentes.
- Aqui parece uma creche. Cerca de 70% de nossos integrantes são crianças e adolescentes - diz o presidente Valdevino Batista da Silva, o Mestre Divino.
Na Lavapés, 270 crianças pobres freqüentam as aulas de bateria e cavaquinho do Barracão. A União das Escolas de Samba de São Paulo (Uesp) colocou no regulamento a obrigação da existência de alas de crianças.
Nova geração do samba paulistano se forma
Sábado, 15 de Janeiro de 2005 às 19:06, por: CdB