Rio de Janeiro, 04 de Setembro de 2026

Nova dirigente da UNE questiona papel do ensino privado

Carina Vitral, estudante de Economia da PUC-SP, foi eleita com 58,4% dos votos. Foi a primeira vez que uma mulher sucede a outra na presidência da entidade, que já tem 77 anos.

Segunda, 08 de Junho de 2015 às 11:58, por: CdB
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A nova presidente da UNE, Carina Vitral
  Carina Vitral, estudante de Economia da PUC-SP, foi eleita com 58,4% dos votos. Foi a primeira vez que uma mulher sucede a outra na presidência da entidade, que já tem 77 anos. Depois de intenso debate, o maior encontro do movimento estudantil brasileiro, com quase 6,5 mil delegados credenciados, oriundos de todos os Estados do Brasil, elegeram no domingo a militante da União da Juventude Socialista (UJS) Carina Vitral, que também é a mais jovem integrante da direção nacional do PCdoB, para presidir a União Nacional dos Estudantes (UNE), pelos próximos dois anos. Em um processo eleitoral que teve a participação recorde de delegados representando 98% das instituições de ensino superior no Brasil, a plenária final do 54º Congresso da UNE também deliberou sobre o projeto da entidade para os próximos dois anos e aprovou moções de apoio.
Este Congresso foi o maior da UNE desde a reforma eleitoral da entidade realizada em 2007, quando a escolha dos delegados acontece por universidade, e não mais por curso, como era anteriormente. Ou seja, os delegados são os eleitos para representar os estudantes de sua universidade no Congresso. Ao todo, cerca de dois milhões de universitários participaram da eleição dos delegados em todo o país. O 53º Congresso da UNE (2013) também elegeu uma mulher, Virgínia Barros, a Vic, como presidenta da entidade. Na história, é a primeira vez, em 77 anos, que a presidência da entidade será ocupada sucessivamente por mulheres. Nesta edição, a vice-presidenta da entidade também é uma mulher, Moara Saboia, de 25 anos, estudante de Engenharia Civil da UFMG.

Carina Vitral

A nova presidente da UNE, defende que a entidade dedique cada vez mais atenção às pautas do ensino privado e promete lutar severamente pela regulamentação do setor. “Ao todo, 40% das vagas do ensino particular são atualmente subsidiadas pelo Estado, mas não há nenhum controle ou garantia sobre a qualidade desse ensino. A universidade particular no Brasil precisa mudar urgentemente”, cobra. Sua trajetória, porém, não começou nas salas de aula da PUC. Antes de se encontrar na paixão pela Economia, foi uma adolescente que circulou entre diversos movimentos e lugares. Ainda em Santos, filha de um pai que trabalha no porto e de uma mãe advogada, começou a se aproximar do terceiro setor e das experiências coletivas com apenas 12 anos. “Tudo começou com uma gincana da cidadania promovida na escola”, relata. Em pouco tempo, já participava do Conselho Municipal de Juventude da cidade, juntou-se ao movimento das ONGs locais, circulou pelo Brasil, Argentina, Peru, Venezuela e descobriu que a vida seria essa: independente e imprevisível. Com a mochila nas costas, apaixonou-se pela América Latina, que carrega até hoje nas preferências musicais e literárias, de Pablo Neruda a Julio Cortázar, de Decirme Bueno a Orishas. Aproximou-se mais fortemente da juventude organizada durante o Fórum Social Mundial em Caracas, no ano de 2006. Foi também durante o mesmo encontro que se juntou ao movimento feminista, fortalecendo sua convicção no feminismo e a certeza de que precisava ocupar mais espaços enquanto mulher. Ao voltar para o Brasil, chegou a iniciar o curso de Relações Internacionais no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, na capital, mas não durou muito. “A lógica do curso de Relações Internacionais muitas vezes é a lógica dos países hegemônicos. Isso não me agradou”, justifica. De volta à cidade natal, foi diretora do Centro dos Estudantes de Santos (CES), no período do cursinho, e acabou sendo aprovada para o curso de Economia na federal de Santa Catarina. Chegou a estudar um tempo naquele Estado mas voltou para São Paulo. O crescimento político no movimento estudantil veio com o cargo de diretora de universidades públicas da UNE, que ocupou entre 2011 e 2013, até ser eleita presidenta da UEE-SP. À frente da entidade estadual, Carina recolheu uma conquista histórica para o currículo: a vitória do passe livre estudantil em São Paulo para ônibus, metrôs, trens e transporte intermunicipal. Foi uma luta que incluiu o acampamento de estudantes em frente à prefeitura, passeatas e outras formas de pressão. A conquista do passe livre em São Paulo é um dos principais marcos posteriores às grandes jornadas de junho de 2013, das quais Carina participou ativamente. Como nova presidenta da UNE, ela acredita que o Brasil vive um momento delicado do ponto de vista político e econômico: “Temos que defender a democracia, combater a atual política de cortes, principalmente da área da educação, precisamos estabelecer a taxação das grandes fortunas, criar um projeto de desenvolvimento, fortalecer a indústria nacional, reduzir os juros”, defende. Na pauta da educação, sinaliza para um período de muita agitação também nas universidades federais, que já sofrem com o contingenciamento de verbas neste ano. Anuncia uma campanha de grandes proporções pela ampliação da assistência estudantil e pela implantação devida do Plano Nacional de Educação no país. Ela promete uma UNE radicalizada, já nos primeiros meses de mandato, contra retrocessos como a redução da maioridade penal: “Vamos barrar essa medida no Congresso Nacional com toda a unidade das forças da juventude. Esse foi um dos grandes consensos do nosso encontro em Goiânia”, conta. Outra postura firme da entidade deverá ser pela reforma política democrática, pelo fim do financiamento privado de campanhas e pela inclusão dos jovens na política: “O nosso Congresso Nacional é essencialmente composto por homens brancos, velhos, heterossexuais e ricos. Isso precisa mudar, o povo brasileiro é diverso”, protesta. Carina está ciente de sua responsabilidade e demonstra tranquilidade diante do novo desafio. Sabe que estará envolvida em um período de grandes transformações na história brasileira e que precisa contribuir para que a UNE alcance e atenda bem a todos os universitários. Sabe que representa uma entidade enorme, com uma história e um saldo de mobilizações único no país. Concentrada e dedicada, parece já estar fazendo o dever de casa e planejando suas estratégias para que a juventude, mais uma vez, conduza o Brasil a um futuro melhor. Além disso, ela sabe que seu rosto será um pouco mais conhecido nos metrôs de São Paulo e das outras cidades do Brasil, mas não se intimida: “Sei do tamanho da UNE e que essa experiência vai mudar a minha vida. Mas também sei que, de certa forma, no fundo sou e continuarei sendo apenas uma estudante.”  
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