Por fábio de oliveira ribeiro 17/06/2011 às 12:43
Canavieiros e usineiros comemoram, mas nós sabemos do que a monocultura da cana é capaz.
Acabo de ler na internet o seguinte:
http://webb.senate.gov/newsroom/pressreleases/06-16-2011-01.cfm
No Brasil o reflexo foi imediato. A imprensa comemora a decisão como se a mesma só pudesse ser interpretada como boa para o Brasil
http://economia.ig.com.br/empresas/agronegocio/senado+dos+eua+aprova+emenda+para+acabar+com+tarifa+a+importacao+de+etanol/n1597033192888.html
Para mim, que sou descendente de senhores de terras e produtores de cana-de-açúcar durante o primeiro grande ciclo econômico Colonial, esta decisão dos EUA não parece tão benéfica. Meus antepassados enriqueceram com o açúcar, mas ficaram presos à monocultura exportadora. Quando o Brasil começou a sofrer a concorrência do açúcar produzido nas Antilhas e o bloqueio naval inglês forçou a França de Napoleão a produzir sacarose de beterraba, a monocultura da cana se tornou uma armadilha cruel para muitas famílias baianas. A minha entre as tais. Foi neste contexto que meu bisavô paterno (e tataravô materno) liquidou os negócios em Salvador e mudou-se para São Paulo para estudar Direito e se estabelecer como Juiz numa comarca do interior paulista.
Não é preciso ser especialista ou vidente para concluir que, num futuro próximo, haverá uma nova explosão da produção de cana-de-açúcar no Brasil. Este novo ciclo da cana, será alimentada pelo fim das barreiras tarifárias conquistadas no Senado dos EUA e pela insaciável sede de combustível que os norte-americanos têm. Uma vez iniciado este ciclo tende a crescer em espiral, pois, como todos sabem, combustível barato nas bombas é o principal elemento de coesão social nos EUA, república em que a política é feita quase que exclusivamente com base neste item de consumo e importação.
E o Brasil? Num primeiro momento o bum econômico será bom. Mas o aumento da cultura da cana acarretará a redução da produção de outros produtos indispensáveis (como alimentos, por exemplo). A racionalidade do mercado acarretará aumento do preço dos alimentos e alimentará as ilusões de novos agricultores de cana havidos de lucros rápidos e fáceis. Uma vez prisioneiros da monocultura eles engordarão suas contas bancárias, apenas enquanto não se tornarem prisioneiros da maldição da monocultura exportadora. Foi o que ocorreu com meus familiares no passado.
A monocultura da cana está associada ao trabalho intensivo. Escravo no passado e semi-escravo no presente. É claro que a mecanização agrícola é um fato, mas um fato que não chegou para todos e certamente demorará para chegar nos rincões. Portanto, o aumento da área plantada de cana também pode reforçar um nosso velho defeito: o desprezo pelas condições de trabalho e a super-exploração de trabalhadores rurais.
O que parece um futuro brilhante (a julgar pelo que dizem os usineiros), terá um brilho radiante de curto prazo e em benefício de poucos. O país, como um todo, tende a perder e muito. Carestia de alimentos afeta a população mais pobre, acarretando maior empobrecimento. Monocultura é armadilha quando o mercado não mais exige aquele produto ou o mesmo passa a sofrer a pressão da concorrência da produção em países mais pobres e que, portanto, podem produzir mais barato. A longo prazo este novo ciclo da cana pode se transformar num câncer sócio-econômico. Os jornalistas não percebem isto porque suas famílias não passaram pelas mesmas agruras que a minha?
Email:: sithan@ig.com.br
URL:: sithan@ig.com.br