Nas sociedades ocidentais, em função de uma longa tradiçãofilosófico-religiosa que fragmentou o ser humano, dissociando principalmente adimensão espiritual da corpórea, pensa-se, ainda hoje, que o corpo humano é umobjeto relevante apenas para as áreas do saber da biologia ou da fisiologia, eque sua realidade material deve ser observada de maneira independente dasrepresentações sociais ou das questões que são postas pelas ciências humanas.Assim, o pensamento ocidental não parece, neste particular, mais ‘racional’ queo das sociedades ditas ‘primitivas’, que consideram o corpo uma das dimensõesconstitutivas da ‘pessoa’ e um elemento entre outros no seio de sistemassimbólicos variáveis.
Esta perspectiva unitária, integradora, relegada pelatradição do Ocidente, também não aparece na concepção do pensamento moderno,que trata o corpo como uma totalidade autônoma, passível de ser desconectada dotodo pessoal ou social. O que se pode perceber é que a concepção moderna, quetambém dissocia o corpo da alma e do espírito, nos distancia da saúde possível,pois nos despedaça, nos faz perder a coesão, a harmonia e a transparência.
O ilusório é pensar que uma fragmentação epistemológicadeixará intactos o indivíduo e a sociedade. Na verdade, ela acaba separando ossujeitos do meio ambiente, demarcando de forma incisiva as fronteiras entreambos e supervalorizando os conflitos que aí se estabelecem. Esta separação é diabólicae alienadora, pois além de ser divisora em si, também impede o que vincula, oque unifica e o que restaura a inteireza vital.
Não se pode separar a subjetividade da corporeidade, poisfazê-lo seria incapacitar-se para uma compreensão mais ampla da vida,reduzir-se ao olhar fechado do especialista, à estreiteza e à minimização daexistência, abrindo caminhos para a intransigência, para o dogmatismo violentoque assassina o milagre da novidade do existir.
A Revelação cristã confirma essa tese e na festa do Corpo deCristo é importante revisitá-la e rememorá-la. O corpo humano está no centro darevelação cristã, no momento em que se trata de algo que foi assumido pelopróprio Deus, na Encarnação de seu Filho Jesus Cristo. A Encarnação do Verbo,que toma corpo humano e habita entre nós, embora carregue consigo uma fortedimensão kenótica e humilhante, de acordo com as palavras do hino da Carta aosFilipenses, por outro lado eleva e engrandece a corporeidade humana,resgatando-a de uma vez para sempre, pois a divindade a abraça por dentro.
A corporeidade humana e carnal vulnerável de Jesus é o lugarda presença e da manifestação de Deus em meio à humanidade, antes localizada notemplo. Jesus é, portanto, o verdadeiro Templo e, doravante, o culto se ligaráà sua pessoa. O Templo se tornou caduco, não é mais o lugar do encontro comDeus. Suas festas não são herdeiras de toda a tradição de Israel. É chegada ahora do verdadeiro templo ser conhecido, o verdadeiro local onde está a glóriade Deus.
O mistério da Encarnação coloca o próprio Filho de Deus e acorporeidade humana por ele assumida em meio à violência e ao pecado presentesno mundo. Neste sentido, Jesus, em sua vida e em seu caminho histórico, não seencontra preservado nem invulnerável às ambiguidades que implicam viver nummundo onde a paz ainda não é uma realidade plena. Jesus, além disso, entra nahistória sempre recomeçada de um povo ingrato e indócil, de má-fé, que não querdar a Deus o que é de Deus. Assume em seu corpo e em sua vida a visão e aexperiência dos profetas, rejeitados, perseguidos.
O corpo é para o Senhor e o Senhor para o corpo. Oferecer,em suma, o próprio corpo, a própria pessoa em sacrifício vivo, santo eagradável a Deus. O Mestre mesmo dá o exemplo supremo com a maneira pela qualvive e sofre o processo que o levará à Paixão e à morte. Seu Espírito derramadoapós Sua Ressurreição indicará que este é o caminho e a vocação da corporeidadehumana à luz da fé cristã.
Habitando na corporeidade humana, o Espírito faz do ser humanoseu templo, sua morada. O Cristianismo traz, entre as grandes novidades queintroduz na história da humanidade, o fato de que o eixo do Sagrado é deslocadodo Templo, lugar de culto e de oração tradicional, para o ser humano, para acorporeidade humana, para toda carne. O destino do corpo de Cristo é o nossodestino. Corpo oferecido pelo serviço a Deus e aos outros, atravessa osofrimento da realidade e ressuscita incorruptível e glorioso. O sacramento daEucaristia realiza isto na fragilidade humana que é a nossa. Celebrando a festado Corpo de Cristo fazemos memória e atualizamos esse mistério que éculminância da fé e centro irradiador da antropologia e da teologia.
[Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e oespírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entreoutros livros.
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