Rio de Janeiro, 24 de Abril de 2026

Nos dias de hoje, Aleijadinho seria discriminado

Por Geraldo Nogueira - Ao ler o voto da Deputada Denise Frossard, como relatora do projeto de lei que estabelece crime de discriminação em razão de doenças de qualquer natureza (PL. 5448/2001, que altera a Lei 7716/89), fiquei, num primeiro instante, chocado. Bateu aquele sentimento de desânimo, um vazio interior na busca de respostas que pudessem justificar as duras palavras que acabara de ler. (Leia Mais)

Sábado, 28 de Janeiro de 2006 às 12:01, por: CdB

Ao ler o voto da Deputada Denise Frossard, como relatora do projeto de lei que estabelece crime de discriminação em razão de doenças de qualquer natureza (PL. 5448/2001, que altera a Lei 7716/89), fiquei, num primeiro instante, chocado. Bateu aquele sentimento de desânimo, um vazio interior na busca de respostas que pudessem justificar as duras palavras que acabara de ler. Chequei mesmo a ter um desejo de mudar de planeta. Todos estes sentimentos justificados na decepção de ver esvaziarem-se anos de trabalho em prol de uma efetiva inclusão social de pessoas com deficiência. Trabalho este até com bastante sucesso, haja visto a visível mudança de consciência social em torno do termo deficiência e inclusão na sociedade.

Fiz um esforço danado para entender as palavras da ex-juiza Denis Frossard. Por exemplo, quando ela diz "A discriminação é válida quando se trata de doenças contagiosas ou de epidemia que coloca em risco a vida e a saúde da comunidade". Ora discriminar negativamente a alguém nunca é válido. Tomar medidas preventivas quando se trata de doenças infecto contagiosa é uma atitude correta, mas cabe aos profissionais de saúde esse exercício. Na frase da Deputada usada como justificativa para não aprovar projeto de lei antidiscriminação, fica o recado de que qualquer pessoa por sua iniciativa e entendimento poderá agir livremente para discriminar pessoas doentes. Isto me faz lembrar os períodos de higienização social.

Vejam este outro trecho do voto da Deputada: "A deformidade fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana. Portadores de doenças e deformidades costumam freqüentar locais públicos exibindo as partes afetadas do corpo, não só com o intuito de provocar comiseração, como também, com o propósito de afrontar a sensibilidade dos outros para o que é normal, saudável e simétrico."

Afirmar que as pessoas com doenças ou deficiências freqüentam locais públicos só com o intuito de provocar comiseração ou com o propósito de afrontar a sensibilidade dos outros é de uma arrogância inaceitável. Primeiro porque mostra um desconhecimento, afastamento e insensibilidade para com causas sociais; segundo porque é uma mentira sem nenhum pilar de sustentação, uma vez que pessoas portadoras de doenças ou deficiências estão incluídas socialmente e freqüentam os locais públicos na condição de trabalhador, estudante, etc...

Bastaria citarmos Stephen Hawking, atualmente considerado o único gênio vivo na humanidade. Seria mesmo uma pena termos que discriminá-lo ou trocá-lo por pessoas insensíveis que não produzem nada ou que produzem muito pouco de bom para a sociedade, enquanto ele revolucionou a física. Também seria uma pena se não tivéssemos hoje as obras de Antônio Francisco Lisboa, "O Aleijadinho", ou se agora tivéssemos que seguir a sugestão de alguns e destruí-las, simplesmente porque foram feitas por uma pessoa com aleijões que produz asco no espírito dos outros.

Talvez a Deputada e Juíza Aposentada, Denis Frossard, tenha suas prevenções quanto à raça negra e aos homossexuais, pois pode ser possível que estas diferenças humanas também firam o senso estético e moral do ser humano.

Geraldo Nogueira é advogado especialista em direitos das pessoas com deficiência, 2º Vice-Presidente da Rehabilitation International para América Latina e diretor Jurídico do CVI-Brasil

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