Rio de Janeiro, 14 de Maio de 2026

Nobel de Cravo e Canela

Terça, 10 de Dezembro de 2002 às 16:29, por: CdB

A dúvida ainda paira no ar que entra nos salões da Academia Brasileira de Letras, no Centro do Rio de Janeiro, quando, nas tardes de quinta-feira, os imortais se reúnem à mesa para o chá. O saudoso Jorge Amado não ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, mas alguns de seus colegas, escritores brasileiros e acadêmicos, trataram de corrigir a injustiça e concederam, informalmente, o prêmio àquele que foi um dos maiores escritores de relevância internacional do século XX. O jornalista e ex-presidente da ABL, Arnaldo Niskier, é claro: Amado foi para a literatura o que Pelé foi para o futebol mundial. ``Amado foi o Rei da Literatura. O prêmio Nobel é dele e ponto'', afirmou. O desabafo tem seus motivos. Há 18 anos consecutivos, a ABL indica o nome do escritor baiano à Academia Sueca para concorrer ao prêmio. ``Há uma política misteriosa neste processo. São meandros que não conseguimos entender. É uma grande frustração'', argumentou Niskier, que revelou ter viajado, em certa ocasião, para conhecer a ``casa do Nobel'' e divulgar a importância da obra do brasileiro. Seu comentário foi endossado pelos colegas Carlos Heitor Cony e Lygia Fagundes Telles. Em seus argumentos, eles encontraram duas explicações: Jorge Amado não ganhou o Nobel por escrever em português e ser demasiadamente popular. Os imortais acreditam que, apesar de ser traduzido em mais de 40 países, o fato de redigir originalmente em português foi um dos pontos negativos na avaliação dos críticos. ``A língua devia ser mais reconhecida por eles. Afinal, são mais de 210 milhões de pessoas que falam português em todo o mundo'', lembra Niskier. ``A Academia Sueca gosta de escritores discretos. O Jorge era popular, e vendeu muito por isso'', criticou Cony. Lygia, por sua vez, definiu as virtudes de Amado que o privaram da conquista. ``Ele escrevia seu povo, a Bahia, o Brasil, a família, com liberdade, com paixão, e vendeu muito em todo o mundo. Acho que a Academia não gosta disso, por ironia do destino''. Para o economista e também imortal Celso Furtado, Jorge Amado não precisava ganhar o Nobel porque o reconhecimento internacional de sua obra já lhe concedera a maior satisfação que um escritor pode ter. ``O Nobel é uma criação simbólica, é uma espécie de mito moderno. Ele não precisava disso porque morreu satisfeito com o sucesso de sua obra'', disse Furtado. A ABL - representante maior da literatura brasileira no exterior - parece ainda estar de luto, mas convive com uma dúvida: quem será o substituto de Jorge Amado na indicação ao Nobel? Celso Furtado, apesar de não dar importância à escolha, acredita que o Brasil não carece de bons nomes. Mas Niskier foi direto: ``Ainda é cedo para definir, mas dificilmente aparecerá um novo Jorge Amado''. Lembranças - Ninguém conhece um famoso escritor chamado João Verissimo. Jorge Amado conhecia. E Luis Fernando, o legítimo, explica. ``Quando eu era criança, o Jorge se escondeu aqui em casa fugindo da polícia política. Ele me viu e disse: você não tem cara de Luis Fernando, tem cara de João. E ele sempre me chamou de João'', lembrou ao descrever o primeiro encontro. Na época, Jorge Amado pediu ajuda ao romancista Erico Verissimo, pai de Luis Fernando. A lamentação da morte é aceitável, mas a tristeza ficou fora do vocabulário dos escritores que lembram momentos de convívio com o baiano. ``A nossa relação foi muito estranha. A gente não podia se olhar porque um ria da cara do outro. Talvez porque nós compreendêssemos o sentido de tudo e demonstrávamos o nosso lado moleque sempre. Quando eu o encontrei pela primeira vez, parecia que nós já nos conhecíamos'', brinca Cony.

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