O escritor José Saramago defendeu a diversidade das “línguas portuguesas” e pediu aos países lusófonos que se unam sem reduzir a língua, ao discursar no Rio, onde acontece nesta quinta-feira o lançamento mundial do seu novo romance, A Viagem do Elefante.
- Na minha opinião, é a mais bela língua do mundo - disse Saramago num discurso na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro.
- Há línguas portuguesas e não uma só língua portuguesa. Essas línguas são, ao mesmo tempo, iguais e diferentes - declarou, ao realçar a “tarefa de defender a nossa língua”.
Segundo o único escritor da língua portuguesa que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, as autoridades dos países lusófonos devem se esforçar para se unir sem diminuir o idioma.
O escritor aproveitou para criticar o “mau uso” que se faz do idioma.
- A língua portuguesa está bastante mal no uso corrente que se faz, no ensino, sabemos que se fala mal - afirmou.
Saúde
Aos 86 anos e ainda em recuperação de uma pneumonia que quase o levou à morte, Saramago afirmou que, no seu livro, “a ação transformadora se deve à doença” que o afetou.
- Há males que vêm para o bem, apliquemos o conto e pensemos que de alguma coisa se aproveitou desta enfermidade que foi grave da qual eu saí intato - disse.
Seu novo livro narra a viagem de um elefante indiano presenteado pelo rei Dom João 3º ao arquiduque Maximiliano da Áustria, um fato verídico ocorrido no ano de 1551.
Para ele, “a questão da linguagem é fundamental numa narrativa” e explica que no romance há uma “simbiose” entre a linguagem atual e a linguagem do século 16.
Por outro lado, o diplomata Alberto da Costa e Silva, membro da ABL e também acadêmico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, afirmou que Saramago possui o “dom de vestir a historia de ficção” e é capaz de transformar o “real num sonho com os contornos do real numa prosa com vocabulário de um poeta”.
- É um grande escritor, desses que se atrevem a tentar recriar a humanidade. Salve José Saramago - disse.
Consolidação
Já o embaixador português no Brasil Francisco Seixas da Costa expressou a importância da obra de Saramago para a difusão da língua portuguesa e a sua afirmação no quadro mundial.
- Saramago escreve um magnífico português e brinca com as regras, mas os escritores podem dar-se a esse luxo. A língua portuguesa está a viver um momento chave de afirmação internacional e está a servir de instrumento no poder de afirmação dos países que a falam - disse à Agência Lusa.
Segundo o diplomata luso, Saramago “tem razão quando diz que há uma falta de atenção à língua”. O fato de lançar o livro no Brasil, é “altamente significativo e comovente, tendo atenção ao estado de saúde dele. Vir ao Brasil apresentar a sua obra é um gesto magnífico”, destacou.
No Rio de Janeiro, Saramago doou o primeiro exemplar da edição especial numerada do livro a ABL.
O escritor segue nesta quinta para São Paulo, onde acontece a cerimônia de lançamento do seu novo livro. Na sexta-feira, ele participa na inauguração, no Instituto Tomie Ohtake, de uma exposição que traça seu percurso por meio de um conjunto de objetos pessoais e manuscritos.