Rio de Janeiro, 17 de Setembro de 2026

<i>New York Times</i> - O governo acertou

Por Flávio Aguiar - O governo e o Palácio do Planalto agiram certo de ponta a ponta no caso do jornalista norte-americano Larry Rohter. Estiveram certos na reação dura e acertaram em aceitar o pedido de desculpas do jornalista, que a direção do NY Times tentou inutilmente neutralizar. (Leia Mais)

Segunda, 17 de Maio de 2004 às 07:02, por: CdB

O governo e o Palácio do Planalto agiram certo de ponta a ponta no caso do jornalista norte-americano Larry Rohter. Estiveram certos na reação dura e acertaram em aceitar o pedido de desculpas do jornalista, que a direção do NY Times tentou inutilmente neutralizar através de uma nota dizendo que o jornal não se retratou.

A matéria de Rohter foi injuriosa, e seu alcance era perfeitamente previsível e danoso. Seu efeito podia ter desdobramentos péssimos na política externa, minando a liderança de Lula, mas também tinha desdobramentos na frente interna. Uma das pautas de setores das oposições é demonstrar que ao presidente Lula faltam condições pessoais para ser chefe de estado. Lula é freqüentemente descrito como tendo gestos de desequilíbrio, de exageros verbais, de incompetente. A pecha de bebum, pois é disto que se trata, acolhida por um jornal de prestígio mundial, viria a calhar para justificar tal vaticínio.

A matéria de Rohter e sua publicação pelo NY Times caracterizaram uma série de equívocos do ponto de vista ético. Primeiro, as fontes eram obscuras, ou declaradamente adversários, ou ainda inimigos políticos do presidente. Segundo, a escolha da foto que ilustrou a matéria foi péssima: ela em si (Lula erguendo um copo de cerveja) ratificava e era um comentário positivo sobre o conteúdo da matéria. Terceiro, o jornal preferiu o caminho do sensacionalismo barato; num caso destes, de ataque pessoal a um cidadão (que soe ser o presidente de um país), deveria tê-lo ouvido, ou pelo menos ter notificado a embaixada para que ela ou o governo pudessem elaborar uma resposta nem que fosse para o dia seguinte.

A reação do governo brasileiro veio na medida. Diz-se que essa reação deu um destaque e uma repercussão que a matéria em si não teria. Não é verdade. De qualquer forma a matéria estaria nos releases de todos os consulados, de todas as embaixadas, de todos os governos do mundo inteiro, no dia seguinte. A resposta tinha de ser pronta, e dura, e de impacto proporcional ao efeito que a matéria certamente teria. Não poderia ser qualquer coisa frouxa como uma mera nota de protesto.

Diz-se também que a reação foi um atentado à liberdade de imprensa e comparou-se o gesto do governo aos da ditadura militar. Nada mais indevido. Não se mandou vigiar o jornalista. Não se mandou qualquer força-tarefa atrás dele para ver se ele saía de fato e imediatamente do país. E depois do seu pedido de desculpas, cancelou-se a expulsão e deu-se o caso por encerrado.

O pedido de desculpas de Rohter é cristalino e não deixa dúvidas. Também foi feito na medida; não cabia ao jornalista confessar má fé ou algo semelhante. Neste caso a sua carreira de correspondente estaria encerrada. A participação do ministro Thomaz Bastos e de escritórios de advocacia experientes dá a medida da gravidade do assunto e do acerto necessário.

Quanto à nota do jornal NY Times, isentando-se de qualquer retratação, ela é o indício seguro de que o jornal está na defensiva. Nada pior para uma empresa jornalística do que uma retratação: vai-se pelo ralo a sua credibilidade. Alguém tem que perder o emprego, num caso desses, como no do jornal inglês que publicou fotos falsificadas sobre torturas no Iraque. A nota do NY Times visa manter a credibilidade e o faz com uma certa insegurança, pois a negociação do governo foi com o jornalista, não com a empresa. Se vai conseguir mantê-la, é outro capítulo.

Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.

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