Queira Deus que o desacerto cometido pelo governo Lula, ao decidir a expulsão do jornalista Larry Rohter, não deixe mais seqüelas do que aquelas já registradas. Uma análise mais serena da situação demonstra que, infelizmente, está faltando política na administração do Estado. O governo reagiu com emoção, sem o tempero da razão. Elevou-se ao quadrado um episódio menor, transformando em crise de Estado e em questão diplomática uma matéria incômoda, mas que poderia ter sido tratada com habilidade.
Recordo-me, a propósito, das relações entre o jornalista Tarso de Castro e Tancredo Neves. Tarso escrevia regularmente contra Tancredo, na Folha de S. Paulo. Seu texto agressivo chegou ao cúmulo de dizer que o político mineiro não devia ter herdado a caneta de Getúlio, mas sim a sua pistola, para que pudesse repetir o gesto do grande presidente. Quando eu me encontrava com Tarso, com quem tinha as melhores relações, sempre lhe dizia que era preciso conhecer melhor a vítima de sua peçonha. Tarso, como era de seu estilo, sorria, e continuava despejando a sua raiva.
Uma noite, em que Tancredo, no governo de Minas, recebia algumas pessoas na residência oficial, em Belo Horizonte, José Aparecido surgiu de repente, ao lado de Tarso. Tancredo recebeu o jornalista como se não houvesse lido uma só linha de suas agressões. Quando todos já se despediam, Tancredo fez questão de que Tarso continuasse. E Tancredo, que passara a noite fingindo que bebia, serviu uísque ao jornalista, serviu-se também e conversou demoradamente sobre Getúlio e Jango, que eram ídolos de Tarso, além de elogiar os gaúchos e relembrar a saga dos chimangos e maragatos.
Dois dias depois, o jornalista Otávio Frias, pai, que adorava a irreverência de Tarso, perguntou-me que uísque Tancredo servira a Tarso. "Ele voltou encantado com Tancredo. Você vai ver." Ele tinha razão. Tarso se tornou um dos mais apaixonados e independentes defensores do governador. Se Lula houvesse convidado Larry Rohter para um churrasco na Granja do Torto, e o constrangido a aceitar uma caipirinha, o episódio já estaria superado - provavelmente com uma outra matéria de Rohter.
A matéria do New York Times pode ter sido mal feita - e foi. Seu grande pecado, conforme lembrou o ombudsman do jornal, foi o de não haver identificado as suas fontes como adversárias do presidente da República. E outro pecado estava na foto de chamada, desnecessária e insinuadora. Isso sem falar no título, afirmativo e pesado. "Tippliness" é um substantivo de amplo espectro, e pode ir da situação em que dois uísques tornam o bebedor divertido, às bebedeiras homéricas. Por que teria agido como agiu o jornalista? Os profissionais de imprensa sabem como o nosso ofício é conduzido pelas circunstâncias e pelas pressões. Não há isenção alguma no ato de redigir qualquer matéria. Somos sempre influenciados, em primeiro lugar, por nossa própria opinião, e podemos ser influenciados pelas pressões dos patrões ou - no caso do correspondente internacional - por aquilo que identificamos como o interesse de nosso próprio país. Tudo isso deve ter movido os dedos de Larry Rohter.
A indústria brasileira cresceu 5,8% no primeiro trimestre sobre o mesmo período do ano passado. O governo recomprou 17,8 bilhões de dólares de dívida pública atrelada ao câmbio nos primeiros três meses deste ano e promoveu, desde que tomou posse, uma redução de 40% para 17% na dependência do Tesouro no que a estas contas se refere. O novo diretor recém-empossado do FMI afirmou que o Brasil não irá mais depender da de sua instituição e que poderá romper os acordos existentes a partir do início de 2005.
As exportações e o superávit do primeiro trimestre foram os mais altos da história do Brasil. A inflação e os juros são os mais baixos dos últimos dez anos. O Mercosul está em plena negociação de um acordo comercial amplo com a União Européia e, na semana que vem, Lula vai dar o maior passo do seu governo nas re