Por Haroldo Pacheco da Silveira Santos 19/05/2011 às 15:46
Alguns fatos e algumas reflexões sobre assunto que parecia ter se esgotado.
Uma das ilusões na discussão ideológica é correlacionar direita sempre com tradição e moralismo e esquerda sempre com amoralidade e postura progressista. Mas embora estudos acadêmicos tenham detectado traços esquerdistas nas ideologias genericamente chamadas fascistas restrinjo-me aqui a alguns conceitos mais práticos para passar idéias sobre o que acho que parece ser mais importante na questão do neonazismo.
Em um caso de neonazismo de uns 13 anos atrás, no Vale do Itajaí, a mãe do neonazista era de origem austríaca mas o pai era bem caboclo. Como é de conhecimento geral embora Hitler falasse em nome do povo alemão ele era austríaco e como muitos de sua época considerava a Áustria como nação irmã da alemã. Em alguns casos de neonazismo que acompanhei o lado materno da família do ativista tinha alguma ligação com a cultura germânica e o pai brasileiro ou latino era problemático ou tido como tal. Em alguns casos o racismo surge da rivalidade entre meio-irmãos que buscam na origem étnica explicação para algumas diferenças.
Há cerca de 20 anos um jovem de direita em Santa Catarina próximo de mim tinha uma boa cultura geral e alguns princípios morais rígidos mas era defensor do Nazismo e falava abertamente que roubara o livro "Mein Kampf" de uma livraria em Joinville. O neonazismo não ocorre necessariamente em maior escala onde maior é a preponderância da cultura alemã. O jovem a que me referi não tinha nem 15% de antepassados alemães e na época em Blumenau, muito mais alemã que Joinville, não se ouvia elogios às teorias nazistas pelo menos não da forma escancarada como ocorria na Manchester catarinense. Na minha opinião isto deve-se à diferença de nível cultural, que considero muito mais elevado em Blumenau que em Joinville. Mas passa também pela forma como a colonização se desenvolveu e por alguns problemas de políticos e empresários nesta última cidade.
Nem todo neonazista é muito ignorante. Detectei como importantes na gênese e no desenvolvimento da tendência neonazista os seguintes fatores: a) visão pejorativa de alguns valores ditos religiosos do Ocidente; b) ociosidade ou capacidade intelectual acima da média que precisa se ocupar com várias coisas; c) influência materialista de parentes, patricinhas e mauricinhos em colégios particulares; d) anti-americanismo associado à crença de que os EUA são dominados por judeus e/ou reféns do sionismo; e) orgulho desmedido alimentado pela família, por exemplo no caso de caçulas; f) omissão de pessoas próximas; g) pai alcoólatra com alguns dos estereótipos usados por antissemitas (nariz adunco, estrela-de-davi, verborragia, etc.); h) exaltação de valores ligados às mitologias nórdicas; i) decepção ou rivalidade com pessoas ligadas a ciganos, judeus, negros e índios; j) inveja de judeus ricos ou com muitos filhos e k) vontade de se destacar como líder aliada à percepção de que o povo de um modo geral é muito alienado.
Parece exagero ou paranóia minha? Vejamos: 1) Segundo diversos depoimentos de pessoas mais claras que eu de tipo alpino, dinárico ou mediterrâneo as pessoas morenas (nem estou falando de mulatos ou caboclos) foram muitas vezes discriminadas em Joinville e Jaraguá do Sul. 2) Em Joinville a empresa Doehler discriminava muito não só mulatos mas até descendentes de alemães pelos 4 costados que não se encaixassem em estereótipo nórdico ou báltico. 3) Uma jovem de origem espanhola bonita e de olhos verdes e que foi radialista contou-me que era chamada de "aquela escura" há pouco tempo em cidade próxima de Massaranduba. 4)Na época da Segunda Guerra Mundial candidatou-se à presidente do Partido Nazista de Joinville um moço que foi zombado porque desconhecia que era de origem judaica por parte de pai e de mãe e acabou suicidando-se. 5) Algumas faces do preconceito notava-se recentemente em ônibus e restaurantes de Joinville. 6) Naquela cidade na fila do restaurante popular um jovem paulista mulato me contava admirado que um racista quase o atropelou e disse que o paulista estava errado só por ser escuro. 7) Um sr. culto amante de literatura e do meio ambiente me contou em Joinville que lá um clube de colecionadores de carro era fachada para grupo neonazista. 8) Um espírita nordestino me contou que segundo um amigo dele de origem alemã também no bairro América em Joinville e não só no Glória, como eu acreditava, havia diversos neonazistas. O mesmo nordestino contou-me que em sua rua um sr. aparentemente racista quase atropelara um músico negro nosso amigo em comum que morara nos EUA.
Uma característica do nazismo era não gostar muito de cultura e não se basear muito em argumentos racionais. Mas os neonazistas modernos procuram se munir de muita informação a respeito de História, Filosofia e Política e sobre possíveis contradições a respeito do Holocausto. Embora F. W. Nietzsche não fosse racista no sentido de hostilizar indivíduos alguns de seus pensamentos criticavam aspectos muito relacionados à mentalidade ou à cultura judaica. Por isso é usado também por neonazistas.
Não é impossível que como em outras partes do planeta ocorram eventualmente no Brasil alianças tácitas entre neonazistas e alguns islâmicos extremistas. Isto pode parecer estranho quando lembramos que os árabes antigos também eram de origem semita. Mas o leitor que pesquisar um pouco facilmente encontrará alguns contorcionismos intelectuais da parte de nazistas e neonazistas na definição de judeu e de ariano. Para os nazistas os japoneses eram "arianos amarelos". É provável que o avô paterno de Hitler na verdade fosse um Rotschild que engravidou a empregada. Assim como já ouvi um rabino dizer que seria necessário exterminar a semente de Esaú (que segundo a Bíblia não incluiria necessariamente todos os árabes) já li textos de autores árabes afirmando que os judeus apesar da origem semita foram aos poucos tornando-se uma "raça" degenerada pelas adaptações, pelas miscigenações e pela religião. Segundo a Bíblia os ismaelitas são descendentes de Abraão mas nem todos os tipos de árabes são ismaelitas. O assunto é complexo também porque parte dos antepassados dos palestinos atuais eram judeus que se converteram ao islamismo. Dessa divagação pela História só quero deixar claro que a questão racionalmente não passa por diferença racial. Aspectos econômicos e religiosos já foram bastante abordados em outros locais facilmente localizados inclusive pela Internet. Alguns livros já foram escritos abordando aspectos psicológicos e psicanalíticos do antissemitismo. Mas acho que é importante de vez em quando alguém alertar que a questão ainda é atual. Não faz muito tempo um caso de assassinato aqui no Paraná levou à descoberta de uma festa de grupo neonazista que comemorava o aniversário de Hitler.
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